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Olá. Meu nome... meu nome será Kafka. Creio que se trata de um nome muito bom. E a partir daqui, meu nome real não existe mais.
Eu vivo sozinho em um apartamento de um dormitório, acompanhado somente por um gato. Sozinho — mas acompanhado de um gato. O nome do gato será... Franz. Assim, somos uma coisa só, complementar, e sinto-me mais confortável não sendo apenas eu. Franz é um gato de pelo negro, tal qual um corvo, de olhos brilhosos, arisco, que raro me dá bom dia ou adeus, mas que come pontualmente a gosma que eu coloco em sua tigela no começo e no final do dia. Às vezes tenho a ilusão de que ele não mora comigo, mas que, pelo contrário, apenas me visita para se alimentar, como se meu apartamento fosse sua loja de conveniência. Mas Franz é um de meus poucos amigos, e não posso julgá-lo por isso. Além do mais, ele é um gato, e você não espera que um gato lhe seja devoto ou subserviente, como espera de um cachorro ou de uma amante.
Meu apartamento é bastante ordinário; fica em um desses prédios antigos, que pontuam as cidades como as rugas pontuam os rostos encarquilhados dos velhos, com fachadas insossas, remendadas, pintadas de cores de mau gosto e já desbotadas, onde sempre há senhoras de idade intrometidas e estudantes barulhentos coexistindo. O portão de ferro se abre ou com chave ou com um toque do interfone pelo lado de dentro do apartamento. São necessárias três chaves diferentes para que eu chegue ao meu, e isso me irrita profundamente, especialmente quando preciso ir ao banheiro com urgência, ocasiões em que acabo demorando ainda mais do que o normal para encontrá-las. No apartamento, possuo apenas alguns móveis canhestros, improvisados ou que foram enjeitados por outras pessoas; há um sofá velho, de cor creme, mas bastante encardido, o pano manchado pelo sol, que foi recolhido de uma vizinha que o estava jogando fora; bateu na minha porta e disse: "Sabe onde posso descartar um sofá? Não posso jogá-lo no lixo ou deixá-lo na calçada porque me cobrarão uma multa. Estive pensando em ligar para um tele-entulhos, você talvez conheça algum?". E eu lhe disse: "Posso ficar com ele?". Ela espiou para a minha sala e viu que havia apenas alguns caixotes em frente à tevê, embaixo dos quais eu guardava um punhado de livros e jornais velhos e que eram usados a guisa de bancos. Sorriu como um réptil, e disse que sim, bastava eu ir até lá buscar.
Na cozinha, empilho garrafas PET e latas de cerveja numa caixa de papelão; quando estiver cheia, jogarei na rua, com o lixo. Apesar disso, como bastantes frutas e vegetais, pois são baratos e assim economizo alguma grana. Meu banheiro é sujo e cheira como um banheiro de posto de gasolina... eu não o limpo frequentemente, e não tenho receio de admitir isso. Nada me seria mais desgostoso do que limpar de dois em dois dias meu próprio cheiro de urina e suor, incrustado nessas lajotas sujas. Felizmente, Franz faz suas necessidades em outros lugares, provavelmente na rua, e nunca em casa. Se ele as fizesse aqui eu o tocaria embora, pois o chão de meu apartamento é revestido por um carpete feio e muito difícil de ser limpo. Não tenho porta-retratos, telefone ou um guarda-roupa. Guardo minhas roupas em caixas, ao lado do colchão, e não me recordo se alguma vez já fui fotografado. Não, também não tenho uma cama, mas não me importo, pois desde pequeno sempre preferi dormir no chão.
Minha vida é bastante simples: eu tenho uma moto e entrego coisas de lá para cá. Muitas coisas. Qualquer coisa, até. Não converso muito com os outros rapazes que trabalham na mesma companhia, rapazes que levam vidas normais e sensatas, de acordo com o que se espera de todo mundo. Eu não quero levar a vida desse modo, e por isso sou quieto, quase mudo, e estou certo de que eles não têm uma impressão muito positiva a meu respeito. Eu não os culpo. Eu não gostaria de alguém como eu se eu próprio fosse uma pessoa normal, sensata. Mas não é esse o ponto, exatamente.
Franz está deitado no sofá, ronronando, quando eu tomo a resolução. É noite, mas as estrelas no céu estão embaciadas por essa claridade mortiça, banhada pela procissão de lâmpadas da rua, outdoors e janelas de apartamentos iluminadas, formando um escudo reluzente que parece esconder a cidade. Nessa noite, eu decido que quero experimentar algo novo, visto que sei que viverei para sempre do mesmo jeito, indefinidamente; quero correr riscos e não chegar sempre em casa até o dia em que Franz morrer na rua e não retornar mais para comer aquela ração nojenta de sua tigela. Não quero repetir meus dias até que me encontre louco, ou que então tenha um derrame, e seja jogado em uma emergência lotada para, instantes depois, ser depositado dentro de um saco preto do mesmo modo que os donos de cães depositam o excremento destes quando os levam para passear no parque. Não quero ser descartado para apodrecer quando já estiver velho e indigente; não há nem glória nem dignidade na superfície desse adeus. Destarte, calculo com frieza e afinco uma morte mais brutal e precoce. Definitivamente, não quero morrer velho, posso garantir isto.
A resolução está tomada, como eu disse. Franz não desconfia, posso sentir na sua postura esguia e costumeira que ele não faz a mínima ideia. Muitas vezes, creio que ele nem nota que existo — decerto pensa que a comida simplesmente aparece no prato, por um passe de mágica, duas vezes por dia. Mas Franz logo saberá de minha decisão: nas próximas semanas, experimentarei uma sensação nova, descabida: quero matar outro ser humano.
Primeiro me passou pela cabeça matar um animal; catar um gato vagabundo da rua e estrangulá-lo na frente de Franz, curioso do que aconteceria. Mas Franz provavelmente apenas iria embora. E um gato é apenas um gato, não importa o que digam. Se bem que, quando muitos seres humanos morrem, é às vezes menos triste do que quando morre um gato, para muitas pessoas. Talvez não sejam os meus valores os mais distorcidos, no final das contas: morrem gentes todos os dias nesses noticiários repetidos da televisão, mas as velhas senhoras choram quando seus gatos morrem babando e contorcidos por estricnina, mesmo que seus gatos não chorem por elas quando elas escorregarem em seus banheiros, rachando seus crânios como uma fruta podre que se abriu em lascas ao cair no chão, vertendo sua polpa. Quando muito, lamberão seu sangue e voltarão para seus afazeres, com ar de modorra e pragmatismo.
Ocorre-me então que, se eu não puder matar um ser humano, gostaria deveras de morrer tentando: ser assassinado, portanto. É isso. Decido que primeiro tentarei ser assassinado. Se a maldição se abater primeiro sobre mim, não precisarei cortar o fio condutor da vida de ninguém, nem interromper o curso de uma existência. Darei essa vantagem para o mundo, para o destino, como a criança que na brincadeira de esconde-esconde conta até cem antes de procurar seus amiguinhos. Essa será a vantagem.
Franz não está em casa nesse momento; com a mente eu traço meus passos para a semana, como se fosse um general estudando o inimigo. Decido perambular durante sete dias pela noite da cidade, sem rumo, esperando que a morte me encontre e me tire para dançar. Se eu não for morto, buscarei a partir do oitavo dia uma pessoa para assassinar, como quem busca o presente ideal para entregar a um grande amigo. No fundo, desejo tanto morrer quanto desejo matar, e aquele que me for possível me deixará satisfeito.
Na primeira noite, bem como na segunda e na terceira, nada de extraordinário se passa. Vago pelo labirinto de piche, através das aleias de árvores caducas e velhíssimas, sem que nada incomum ocorra. Alguns taxistas fazem menção de parar, vendo-me em lugares ermos e estranhos à alta noite, mas minha falta de interesse logo impele seus pés novamente à língua do acelerador, calando sua intenção. Muitos passam com medo de que eu seja um assaltante ou um louco. Quando vago pelo grande parque, e passo próximo ao colégio militar, alguns michês vêm ao meu encontro perguntando se eu quero seus serviços; nego, não estou interessado. Não sinto nada por eles que não uma compaixão inata. Até me atravessa a ideia de matar um michê, mas me parece uma solução simplista e equivocada, logo de cara; além do mais, não desejo que esse assassinato se revista de qualquer significado político, social ou preconceituoso, se é que há um discernimento claro entre essas três esferas. Parece-me que não, que não há. Além do mais, simpatizo com a felicidade viçosa e o ar de modorra deles. Parecem-me inofensivos; sinto-me em paz perto deles. No terceiro dia, entretanto, um deles se aproxima e pergunta se, afinal, eu estou competindo com eles; que eu não poderia, ao menos não sem me apresentar e combinar certos detalhes. Eu retruco que não, não estou competindo, não sou um michê. Apenas estou caminhando pela noite porque quero encontrar algo. Ele me olha, como se eu fosse um alienígena, e diz que tudo bem, então. Pergunta-me o que estou procurando, mas eu digo que não posso lhe informar. Tranquilizo-o de que não é nada com ele ou com os outros rapazes. Decerto desconfia que eu seja um jornalista ou um policial, ou outra coisa que o valha, não sei ao certo o que lhes assusta ou o que lhes fascina. Tampouco me importa.
A noite, no ventre da cidade, é um segundo mundo que se descortina. Miríades de faróis cruzam por mim, indolentes, incólumes, e continuam a passar, como num cortejo surreal. Essa vida secreta e noturna fermenta sob a umbrela do espaço, cheia de sombras e rostos escondidos; figuras cambaleantes e carros com vidros fumê. Minhas pernas doem e, com sorte, meu trabalho no dia seguinte está reduzido porque decido pegar apenas meio turno, durante o período da tarde. Não são poucos os bêbados ou mendigos com que cruzo. Muitas vezes, a linha entre ambos é tênue; o mendigo está com uma garrafa de bebida alcoólica embaixo do braço, caído contra a parede; o bêbado não sabe onde está a sua casa e já esgotou sua garrafa de bebida, e agora perambula como uma alma condenada pelo purgatório da noite; alguns cantam alto e dizem impropérios a árvores ou cachorros. Também simpatizo com eles, e noto que seria incapaz de assassinar um infeliz assim. Fica claro que eles morrerão pelas mãos da vida, do tempo, jamais pelas minhas próprias.
Vagando pelas ruas menos nobres da cidade, encontro um grupo de prostitutas. Elas me puxam pelo braço, chamam-me para fazer coisas hediondas e nefastas e eu, eu nego, não quero nada sexual, não a partir de agora. Sinto um pouco de nojo delas, ao contrário do que sinto pelos michês, justamente porque elas têm de se deitar com homens nojentos, enquanto os homossexuais costumam ser encantadores e instigantes. Também há nelas certa baixeza de modos e ânimo que não se apresentava no rosto dos michês; até a vulgaridade destes me parece mais profunda e simbólica que a delas. Nego repetidas vezes, e um dos cafetões se irrita comigo e diz que se não estou interessado, que eu vá andar por outras bandas, estou fazendo ele perder tempo e dinheiro. Chego a acreditar que é ele que vai me matar, no meio de todas as putas, e elas correrão como aves em debandada, chilreando com suas vozezinhas agudas, suas vestes multicores mal cobrindo a carne suada, e um carro de polícia tangendo o silêncio e as cores estáticas com seu vermelho-azul vomitado vêm fazer a ocorrência e identificar meu cadáver. Mas ele logo se sossega e me deixa em paz; deve pensar que sou louco ou bêbado. E como não quisera eu ser apenas isso.
Apenas no quarto dia algo interessante ocorre; o destino quase dá cabo de mim, mas, por muito pouco, eu escapo com vida. Quando caminhava nas proximidades do reduto dos michês, pelas árvores esguias e meio assombradas do parque, que gemiam através de um vento fino e cortante, frondosas constelações farfalhando sobre mim, sou cercado por um grupo de jovens. A maioria tem cabelos raspados, veste-se de um modo extremamente peculiar e de mau gosto e, ainda por cima, estão meio bêbados e inflamados por sei lá que ódio. Gritam que eu sou um michê, empurram-me, e eu digo-lhes, com certa contrariedade, que não sou, que estou apenas vagando pela noite, esperando algo. Eles não me ouvem por sequer um segundo, e dizem coisas obscenas e me ofendem, embora eu não sinta humilhação moral nenhuma, visto que eles não se dirigem a mim, mas a uma ideia formada que não encontra correspondência em minha alma; mas eu me deixo ficar, como um espantalho cercado pelas aves que o ignoram. Eu poderia muito bem tirar uma faca do bolso e matar quatro ou cinco deles, e depois ser morto; mas eu não quero matar por raiva, isso não me seria cabível.
Então um deles desfere um soco em meu rosto e eu caio. Protejo o rosto com decisão, os braços enjaulando meus olhos e minha boca (não quero ficar deformado ou perder dentes) e eles me enchem de pontapés e socos, até que o meu corpo esteja florescido de hematomas e eu sinta meus ossos moídos; filetes de sangue escorrem de escoriações em minhas pernas e tronco, o gosto metálico e morno do sangue lambuza minha língua e meus lábios, quando então uma viatura os repele, como se fossem moscas tocadas por um rolo de jornal velho.
Os policiais me auxiliam; perguntam se eu sou um michê, e eu nego. Com certa relutância ouvem que eu estava apenas caminhando, peguei esse costume. Eles me alertam que a ideia de caminhar a essas horas é ridícula e perigosa, e que, a menos que eu seja um michê e fique próximo do meu grupo, eu não deveria mais fazer isso, pelo meu bem e pelo bem deles, que não desejam ficar recolhendo corpos espancados toda noite. Eu pergunto por que eles não vão atrás dos jovens, e eles riem. Ajudam-me a levantar e perguntam se eu quero ser levado para um hospital. Por um instante, penso em replicar que não, que não há necessidade, mas julgo que a experiência pode ser interessante. Além do mais, realmente meu corpo dói demais e eu não sei se conseguiria andar até meu apartamento nessas condições.
Eles colocam um cobertor velho no banco de trás para que eu não suje o veículo. Ocorre-me a ideia de matar os dois policiais, mas logo a afasto — primeiro porque não há a necessidade de dois assassinatos, apenas um me basta. Segundo, porque recairia novamente em um assassínio com algum sentido, e eu não desejo isso, realmente. A viatura anda em silêncio pela noite, e agora eu vejo as miríades de faróis passarem como se eu estivesse em queda livre de um prédio, a alta velocidade, tornando-se logo feixes imprecisos que lembram os tiros a laser dos filmes de ficção científica, que não raro são exibidos de madrugada com péssima dublagem nos canais desconhecidos de minha televisão.
Enfim, chegamos ao hospital. Eles me atiram num banco e avisam a secretária, que parece que já os conhece; talvez esteja alertando que eu sou um michê, apesar de repetidas vezes eu lhes ter negado. Não sei se isso acontece muito ou não. Eles logo vão embora sem se despedir.
Eu não espero muito tempo na emergência, sentado nas cadeiras brancas de plástico, em meio ao séquito de caras amassadas e contorcidas de medo e de dor que contemplam o vazio da luz pálida que emborca o recinto, com seu halo merencório, pois logo sou conduzido para dentro. Fazem-me perguntas, examinam meu corpo estropiado e realizam alguns exames de imagem; concluem que não houve um traumatismo sério, mas sim escoriações graves, e fazem alguns pontos na minha cabeça, onde só agora eu noto que estava também sangrando, e em minhas costas, onde outro ferimento maior está presente. Quem me atende é uma jovem simpática e prestativa, e eu lhe explico que apenas estava andando àquela hora da noite, antes que também ela me pergunte se sou um michê. Leio seu nome em um crachá. Parece-me que essa cena não é mais parte integrante de minha vida, mas sim de um filme muito antigo e ruim que eu assisti certa feita. Procuro pelas câmeras, mas logo desisto da ideia, que é tão ridícula quanto andar à noite em busca da morte. Sou liberado e caminho até em casa. Não fica muito longe desse grande hospital, de qualquer maneira.
No quinto, no sexto e no sétimo dia, nada de extraordinário acontece. Agora é o meu turno de jogar.
***
Primeiro, eu preciso encontrar uma vítima. Essa tarefa, na verdade, é mais difícil do que eu imaginara. Não quero matar em público, ser interrompido ou linchado, sujando assim a beleza efêmera e libertadora do momento; não, isso não me serviria. Preciso escolher a vítima, talvez segui-la, preparar uma emboscada e levá-la ou a um local deserto ou então ao meu apartamento, a depender de se eu quiser ser inocente ou culpado depois. Ou, então, escolhê-la num impulso, ao acaso, do mesmo modo que os felinos escolhem suas presas, desfiando-as em seus dentes ávidos, mas com a placidez saborosa da vitória.
Decido vagar pela cidade durante o dia. Dei à noite a chance de me assassinar, e ela falhou; agora atravessarei o dia trajando meu silêncio limpo e engasgado, procurando até o fastio alguém para furtar a existência à força. Pergunto-me se isso acaso inflaria a minha própria, tornando-me mais móvel e feliz; se o fato de absorver a vida de alguém me encheria como o gás que enche um balão, e me permitiria voar, de um modo metafísico. Como todas as perguntas que sou capaz de formular, também esta me parece tola e descabida.
Quando Franz termina sua comida e pula pela janela de meu apartamento térreo, também a minha fisionomia se contorce para a espreita e para a liberdade, e meus músculos, embora eu não os veja diretamente, certamente moldam uma máscara nova e inopinada em meu rosto. À revelia do que possa acontecer, sinto-me calmo e sereno. Meu espírito é como um lago calmo, em uma planície desabitada: nada trespassa sua existência, nada perturba sua forma ou seu interior; nunca, nos mil anos que se foram ou nos mil anos que hão de vir, alguém passou por ali, de modo que o movimento e até mesmo o tempo não possuem significado algum aqui. O sentido de algo depende de alguém que o interprete, caso contrário, não existe, mesmo que o que ele tencione representar exista. Os sentidos são deformidades açoitadas pelos homens, e em meu espírito os disparates estão todos enforcados lado a lado, com suas línguas postas para fora e os rostos azuis e gélidos. Do lago de meu espírito, a culpa e o temor estão banidos, incapazes de penetrar ou perturbar o bojo de sua conformação.
Também me dou uma semana de prazo. No primeiro dia, vago como um espectro pela cidade, e salvo uma pessoa que, ao trombar comigo, pede desculpas atravessadamente, e as inúmeras mãos que se esticam com papéis pelos quais não tenho o mínimo interesse em apanhar, essa sensação praticamente se confirma. A maioria das pessoas ignora minha existência, como eu anteriormente já ignorei a delas. Mas, a despeito disso, me encanta que elas sequer suspeitem que eu, por quem um dia elas já cruzaram, serei um assassino, ou talvez até o assassino de uma delas. O segredo jamais dividido é um santuário revigorante para aquele que o possui.
Entro em um centro de compras; seu imponente prédio, de tons claros, desenha-se como uma oferenda para a modernidade da qual sou filho. As inúmeras lojas em seu interior parecem uma feira. Vejo as pessoas entrando e saindo, com ou sem sacolas: elas comem sorvetes, falam em seus celulares, andam de mãos dadas, empurram carrinhos de bebês e riem e falam alto, numa oferenda sequiosa, porém ignorante, à vida. Elas consagram a mesma modernidade que me repele, que me ilha e que me transforma em assassino — não por condição do meio, mas por necessitar voar da modernidade como a donzela que foi cercada por agressores prefere voar da alta torre em que se encontra a entregar-se à violação. Vou desferir um golpe pontual na modernidade, sei disso. Sei também que esse gesto passará em branco e no dia seguinte estará superado; sou uma pulga tentando derrubar um elefante. Mais que tudo, lembro que essa não é, em hipótese nenhuma, a minha intenção, embora a ideia per se me bajule tanto.
Delineio alguns alvos, mas logo os risco mentalmente de minha lista imaginária, com a tinta do desinteresse tácito que me acomete em repentes: um garoto, de mochila, que, falando em seu celular, parece cansado e aborrecido. Uma menina, solitária, sentada em um banco da praça de alimentação, com cara de quem foi deixada esperando por alguém que não virá. E um velho senhor, que, curiosamente, sorri para mim enquanto estou a olhar a capa das revistas em frente à vitrine de uma das lojas.
Deixo o centro de compras e vago por mais um tempo; passo por alguns bares, onde os jovens e aqueles que ainda se iludem que são jovens falam em alto tom, numa composição tão grande e diversa de ruídos que tudo se torna uma coisa só, amortecida, um solilóquio zunido, proclamado por um imenso e etéreo inseto através da noite premente. Quando escurece, retorno para casa.
Repito a mesma rota no segundo dia. Chego a considerar uma mulher, muito elegante, a esperar na parada de ônibus, mas demovo-me da ideia, não sei bem por quê.
No terceiro dia, porém, entabulo uma conversação com uma estudante, enquanto esperava sentado num dos bancos de madeira do grande parque central de uma inspiração para onde seguir. Como um gato, eu esperava no sol que algum impulso assomasse por meus músculos e ossos.
Ela senta-se ao meu lado: tem olhos lustrosos, veste uma blusa branca curta e sem mangas que destaca o busto de tamanho moderado. É, a seu modo, atraente, e fala de um modo doce, querendo denotar uma naturalidade cordial que certamente não lhe cai bem. Está nervosa; algo em mim o detecta. Ela começa a conversação com calma, como uma cobra ao se aproximar de um rato, aproveitando-se do momento de hesitação deste que, em vez de correr desde já, espera primeiro não ser visto. Assim, eu deixo-me levar. Logo conversamos sobre os mais variados temas, e ela faz questão de concordar comigo em pontos que eu próprio relutaria em concordar. Os tópicos se estendem e ela finalmente pede meu número de celular. Eu digo que não uso um aparelho celular, e ela se mostra surpresa. Um pouco encabulada, pensando que talvez eu tenha mentido, o assunto envereda por esse caminho e, enfim, ela toma uma caneta da bolsa e me dá seu número anotado. "Se quiser me ligar, podemos sair uma hora dessas."
No quarto dia caminho para o lado contrário dos que andei nos dias anteriores, mas nada encontro. Meus movimentos estão embolorados na mesmice da cidade, e furtivamente sinto que vou vagar para sempre sem jamais satisfazer meu ímpeto. Cogito desistir, achando minha intenção ridícula, para logo a seguir ridicularizar a própria cogitação de brecar a intenção. O quarto dia se acabou e estou decidido a continuar, após breve embate interno.
No quinto dia, então, ligo para a garota. Ela marca um local: será em uma determinada boate, que eu obviamente desconheço, dentro de dois dias, e nos encontraremos à uma da manhã junto ao bar. Tenho agora uma vítima e um local, e o encontro coincide justamente com a noite do último dia de meu prazo. Não obstante, caminho durante o sexto dia, e gasto minhas economias comprando roupas, perfume, algumas flores (um ramo de copos-de-leite) e lençóis brancos, novíssimos. No sétimo dia, peregrino pela cidade, menos alarmado com o dever de encontrar e com a paz de quem já conseguiu o que queria. Algo curioso, entretanto, acontece.
Dois jovens passam por mim conversando; geralmente, quando pessoas caminham próximas a mim, escuto suas conversas e, na maioria das vezes achando-as ridículas, imagino se não vivem de modo mais enganoso ou até criminoso que eu. Matar é algo tão grave quanto desperdiçar algo maravilhoso como a existência do modo que elas desperdiçam? Por isso tudo, não posso deixar de entreouvir. Falam sobre outra festa, em outra boate, mas na mesma noite. Falam alto, não apenas para um ouvir ao outro, mas para que o mundo ouça a respeito de suas vidas, de seus funcionamentos e do status que tentam incutir em suas imagens. Uma chama em mim reverbera e se aviva, como se combustível fosse jogado sobre ela. De algum modo, eu sei que é para lá que eu tenho de ir nessa noite, e não para o encontro da outra mulher, que ficará me esperando no bar até uma e meia, duas horas, e encontrará outro alguém para preencher suas necessidades físicas e psicológicas. De qualquer modo, até já esqueci sua face e seu nome.
Penso que ela não me odiará tanto se chegar a ler nos jornais que, na mesma noite em que marquei com ela, acabei assassinando outra pessoa no mesmíssimo horário.
Coloco um jarro com os copos-de-leite ao lado de meu colchão e estendo os lençóis sobre ele. Visto-me com a camisa de fina qualidade e a calça macia que comprei, coloco as meias e calço os sapatos, borrifo alguns jatos do perfume recém-comprado contra meu corpo. A essência é cítrica e me causa um arrepio. Noto que Franz não está em casa; deixo sua comida a postos, e me preparo para sair. Ganho as ruas, galgo sua frieza e entro em um táxi. Logo estou na boate.
O ambiente é extremamente desconfortável para mim; a música é alta ao ponto de deixar as pessoas surdas, gritando umas nos ouvidos das outras; as pessoas se empurram, se agarram, se tingem como se fossem milhões de cores viajando em uma paleta caótica. Procuro a face dos dois jovens nela: talvez eu deva matar um deles. Mas não os vejo. Ou, talvez, em meio a todas essas faces iguais, todas elas desejando possuir a um outro, a ter a consciência de si superficial e física que tanto as apetece, eles tenham se diluído nesse frenético caldo social. Tento agir com naturalidade; movimento-me como se dançasse, seguindo seu estranho ritual, tornando-me parte dessa uma coisa só, amorfa e insossa. Compro bebida uma, duas, três vezes. Paro, pois quero estar sóbrio para não distorcer minha percepção ou deformar meu plano.
São duas da manhã. Já conversei com duas meninas, mas não pude ir adiante. Algo me freou; talvez não fossem as pessoas certas.
Finalmente, pelas três horas, vejo um rosto familiar. Aproximo-me da moça e pergunto-lhe, já avisando que minha pergunta vai parecer ensaiada ou clichê, de onde nos conhecemos, porque ela realmente me parece familiar. Fico surpreso com sua resposta e com seu sorriso amigável: "Eu dei os seus pontos! Lembra? No hospital?".
Sim, é a médica que me atendeu na noite em que fui espancado por pensarem que eu era um michê. Ela se mostra surpresa e conversa demoradamente comigo. Pergunto por que ela está sozinha, e ela me diz que veio com um grupo de amigos, contra a sua vontade, e que agora eles se dispersaram, bêbados, pela festa. "Estava mesmo pensando em ir embora." Mas conversamos pela próxima meia hora e, sentindo que cada vez mais ela se inclina a tocar suavemente meu corpo com sua mão azada para a insinuação, a dançar próxima de meu corpo e a falar em meu ouvido, rindo estridentemente, enfim colo nela o suficiente para deixá-la com um olhar suspenso e lascivo, flertando a menos de um palmo de minha boca. O beijo logo acontece, catártico, e por um bom tempo flutuamos nessa atmosfera única e cerrada, como se num patamar acima de todo o resto da festa; enrodilhamo-nos dançando numa espécie de dança primitiva, numa oferta a deuses desconhecidos, mas que mesmo assim ditam nosso caminho. "É ela que matarei", penso. Ela me pergunta acerca do que estou pensando; eu a beijo em resposta, com um sorriso resguardando meu rosto.
Quando estamos saindo, deixo-me ser visto de mãos dadas com ela por várias pessoas, de propósito. Não vejo a necessidade de um álibi, pois não desejo cometer o crime perfeito, situação que me levaria ao risco de querer repeti-lo incontáveis vezes. Não desejo banalizar minha ação ou transformá-la em hábito. A moça se despede de alguns amigos, que fazem pilhérias — acredito que acerca do fato de ela ir embora em minha companhia, mesmo tendo sido forçada a vir esta noite. Creio que as mesmas pessoas que fazem piadas agora se culparão amanhã.
Durante o trajeto de táxi desfilam todas as luzes esquizofrênicas da cidade e dos carros desabaladamente a embalsamar a escuridão. O taxista é taciturno e parece apressado. Eu e a moça limitamo-nos a olhar um para o outro, e a trocar carícias com a ponta dos dedos pressionando ou esfregando a pele um do outro.
Minha mente agora se debruça sobre detalhes desimportantes de minha própria existência. Creio que isso acontece, pois, ao matar a moça, de certo modo estarei me condenando também; embora agora eu veja que essas lembranças são inúteis, pois, em pouquíssimo tempo, estarei acabado tanto para a vida como para a morte. Deve ser assim também com o prisioneiro que anda pelo mofado e sombrio corredor que o levará à inconsciência súbita, perdido em divagações indômitas, com poucos segundos para pesar toneladas de lembranças, selecionando-as ao léu, ou ao sabor da evocação.
Mas o táxi finalmente chega ao destino. Descemos ambos. Eu estendo as notas para o homem desinteressado, que as apanha, e digo-lhe que fique com o troco. Ele agradece, sem muito entusiasmo, e logo está acelerando, tingindo com o vermelho ibérico de seu carro a película embaçada da noite. Ela coloca seu braço ao redor da minha cintura enquanto subimos.
Estou agora sentado no sofá, enquanto ela vai ao banheiro. Franz parece não estar em casa; onde ele andará, nesse horário? Invejo o seu direito de não ser humano, de caçar suas presas e de não construir uma civilização. Os animais devem achar nós humanos estúpidos, com tudo que erguemos, comparado ao quase nada que vivemos. Daria tudo para trocar de lugar com Franz e ser livre.
Quando ela retorna, gastamos uns poucos minutos conversando; peço-lhe desculpas por meu apartamento ser tão simples, ela faz pouco caso e diz que não se importa, até prefere assim, visto que mora com os pais e sua casa é luxuosa e impessoal. As frases débeis se perdem como sucedâneos inúteis para o silêncio, e logo deixamos os lábios falarem pelo contato em lugar da articulação de palavras. Mais à vontade, ela pergunta por que não vamos para o quarto.
Deitamo-nos embaixo do lençol branco; logo as mãos dela perscrutam meu corpo, seus beijos deitam-se com fúria sobre meu pescoço, seus dentes sobre meu ombro; com minhas mãos eu apanho seus seios, delineio seus mamilos entre meus dedos e os acaricio com minha língua. Ela está agora apenas em suas roupas íntimas, e retira com sofreguidão as minhas roupas; seu corpo resvala num vaivém indômito por sobre meu corpo nu, que já sente a umidade de seu sexo inundar o tecido branco que o cobre; com afinco, acaricio suas coxas, seus seios e deito meus beijos por seu corpo, enquanto ele rege uma abafada sinfonia de gemidos e suspiros, equacionando o corpo entre contorcer-se, rija de prazer, e baixar a guarda, relaxando os músculos. Ela toma minha mão e a guia para dentro de sua roupa íntima, solícita e descontrolada, como se fosse um trem desgovernado que ruma para uma construção maciça; já não consegue mais vincular seus lábios aos meus, e de sua boca apenas escapa um silvo ruidoso e entremeado de embriaguez.
Finalmente, ela retira a última peça de roupa e encaixa o corpo no meu; seus movimentos ora são bruscos, sincopados por uma violência ansiosa, e ora se desaceleram, tornando-se categóricos, sentinelas dos próximos golpes. Mudamos de posição algumas vezes e, enfim, ela vê suas forças se exaurirem, deixa escapar o último e mais longo gemido, e torna-se uma boneca, imóvel. Eu a deito e fico por cima dela, e em poucos minutos sinto verter do meu corpo para o dela toda minha bestialidade, em jorros caudalosos, ritmados e quentes de prazer. Estamos ambos entregues ao cansaço, e permanecemos abraçados por alguns minutos, sem nada dizer.
Olho através de seus olhos azuis como um relojoeiro para o mecanismo que lhe é tão querido olharia; por trás desse pequeno caleidoscópio aberrante de cores, brilho e juventude, que futuro se aprisiona, que desejos tiquetaqueiam? Sei, entretanto, que preciso me desvincular da pergunta, equacionar meu interesse apenas no ato, e não no pensamento, ou deixarei a parte dócil da humanidade anestesiar a bestialidade que coabita com ela. E tudo teria sido infrutífero até então.
Pois se eu olhar através de seus olhos e por acaso incorrer no erro de perguntar o que ela sente, e ela despejar suas reminiscências como quem oferece frutas frescas numa bandeja, serei traído pela curiosidade e pela empatia, e tudo se inverterá. Mais perguntas se forjariam, antitéticas e ansiosas por conciliação: poderei amá-la? Isso resultará que, um dia, a odiarei? A rotina hermética nos desorganizará ao ponto de sermos objeto um para o outro? Quando deitar ao seu lado de noite, pensarei na vida perdida, pensarei nas outras mulheres, na própria solidão, e nos filhos que poderia ter tido em lugar dos meus? Eis por que é tão importante não saber: se eu não criar laços, não terei de parti-los. E assim conservo essa rara minuta de liberdade para mim, e para mim somente.
Suas pálpebras se fecham. Ela coloca o rosto contra o meu tórax e boceja. "Me acorda daqui a pouco?", pergunta ela, num arremedo de espreguiçada, para logo em seguida completar: "Preciso descansar uns minutos, antes de ir."
Eu aceno com a cabeça. Espero que ela adormeça. Cansada e embriagada do jeito que está, ela sequer acorda quando eu a coloco em decúbito dorsal e a cubro com o lençol. Levanto-me e vou até a cozinha. Lá, apanho uma faca, seu cabo de madeira sustenta a inevitabilidade e a loucura que estão ressoando em sua lâmina cromada. Há um quê de poesia nesse brilho indefeso e ameaçador.
Volto ao quarto. Sob o fino lençol branco, o relevo de seus seios e o seu ressonar se anunciam, em perfeito e virtuoso desconhecimento dos minutos seguintes. Posiciono a lâmina perpendicularmente, na parte mais alta do abdome; vi na televisão que um corte profundo nesse local dilaceraria a aorta e causaria morte quase imediata.
Sem hesitação, afundo a lâmina na carne dela, retiro-a e, rapidamente, uma mancha rubra como o vinho impregna o branco do tecido, numa expansão vigorosa e incontrolável. Tapo a boca dela com minha outra mão, em concha, mas ela sequer consegue articular um grito; sinto o espasmo que atravessa seus músculos, a resistência em abandonar a vida sem aviso prévio, e seus olhos abismados e ignorantes tendo poucos segundos para entender demasiadas coisas. O brilho dos olhos é transformado em uma opacidade fixa, não menos bela, que se mescla à inércia a que o corpo se entrega. Apenas mais poucos minutos, e está tudo acabado.
Observo o corpo estático e a impressão viscosa de sua fugacidade que se gravou no lençol; pego os três copos-de-leite e os repouso sobre o local do ferimento; suas pétalas mancham-se dessa tinta escarlate na face inferior, e conservam a brancura irretocável na outra. Um miado se faz perceber na sala.
Sento no sofá velho, com Franz ao meu lado. Ele continua se lambendo, indiferente a tudo. Ele olha desinteressado para o arabesco sanguinolento em minhas mãos, e às manchas rubras em minha camisa, talvez até com certo enfado. Seu olhar parece conter mais aborrecimento do que repreensão, como se inquirisse: "Seu idiota, quem vai encher minha tigela daqui por diante?". Penso em responder-lhe: "Você sabe se virar. Sempre soube." Mas nada sai da minha boca.
Sinto uma estranha sensação de leveza. Fecho os olhos e estou nos campos da minha infância, cercado de flores e cachorros, que dançam numa ciranda confusa; uma música parece vir do longe, mas eu não consigo identificá-la. O céu está carregado, mas o ar é que parece ter se estagnado, se solidificado, e a cena toda repentinamente se congela; tudo ao meu redor se congela, e há apenas um pequeno perímetro no qual posso me mover. Noto que há uma faca à minha frente. Todos olham para mim, incentivando-me; tomo-a em minhas mãos e, segurando firmemente seu cabo, cravo-a em meu estômago e depois o giro. Sinto-me como se houvesse retirado uma rolha de um tanque que transbordava, cheio de água e sujeira, e tudo vai embora, drenado para um desconhecimento impalpável. Parece que minha alma escoa pelo ralo de meu estômago, libertando-me para o infinito.
Abro novamente os olhos. Observo o relógio de pulso em minha mão esquerda; limpo-o com a manga da camisa, para tirar o sangue que lambuza o visor. É passado das cinco da manhã. Franz levanta-se e se espreguiça, a coluna toda arqueada, a boca entreaberta, soltando um guincho estranho. "Deve ser o guincho da morte", penso eu, com o olhar de súplica e satisfação. Olho para os lados imaginando a velha senhora em sua túnica preta, apontando a foice para mim. Contemplo, então, a porta entreaberta do quarto e percebo que esqueci por um momento a existência da moça. "Talvez a morte esteja lá, ainda, como um abutre." Eu poderia retirar a moça dali, tentar dar um fim ao seu corpo e inocentar-me, mas esse seria um exercício inútil. Talvez o que eu buscasse desde o início fosse não só o crime, mas também a punição. Ou talvez sequer tivesse considerado que existia algo além do crime em si.
Uma ambulância rasga a noite com seus gemidos insones e patifes; esse barulho faz borboletas explodirem em meu estômago, e me enche de náuseas. Sonho com a faca em meu ventre, o ralo aberto de minha podridão. Calculo quanto tempo demoraria para que dessem pela falta da moça, recolhessem os depoimentos e chegassem até mim; ou até um vizinho denunciar o mau cheiro de seu corpo putrefato atiçando-se pela janela. Como seria se encontrassem meu corpo exangue no meio da sala? Franz ainda estaria aqui, cúmplice inequívoco dessa loucura?
Há muito tempo ainda. Jogo o corpo contra o respaldo do sofá e espero algum sinal de sono ou desespero denunciar-se em meu semblante. A ambulância sumiu ao longe como se eu houvesse asfixiado suas sirenes com as mãos de piche da noite.
Ouço os passos de Franz tamborilando em minha direção. Meu corpo está tão leve. Fecho meus olhos: parece que o mundo se dissolveu como um pedaço de pão abandonado em uma taça d'água, ou um barco de papel engolido pelo fluxo da chuva que se acumula à margem da sarjeta. Meu corpo já não parece meu corpo, e meus pensamentos já não parecem meus pensamentos. O mundo estará levedando? Ou estarei eu, acaso, morrendo?
Onde está Franz? Não sinto mais a sua presença na sala, mas estou certo de que ele não se moveu um centímetro sequer desde que cerrei os olhos; seu corpo de azeviche terá evaporado? Tento abrir os olhos, mas não consigo: estou preso; alguma transformação horrível se passa — talvez eu tenha sido engolfado por uma abstração, por um evento raro, e esteja me debatendo dentro de um arrependimento não anunciado, de uma vida desperdiçada. Mas como, se me sinto tão tranquilo? Haverá arrependimento já conformado? Ou isso é outra coisa, talvez? Talvez seja Deus me punindo por ter cuspido categoricamente em seus preceitos distorcidos, das regras aviltadas conduzidas e hauridas pelos homens. Um longo espasmo parece comprimir meu corpo, amassar meus ossos, rascar minha carne como milhões de dentes afiados — todos os odores do mundo, todos os sabores, os sons, convergem contra mim e eu sinto um desespero premente e denso me desintegrarem.
E então tudo se cala de uma vez, e um alívio agudo assoma meu corpo e me coaduna em algo novo.
Abro meus olhos. No sofá, o homem que eu era está com a cabeça pendendo para um lado. Estará morto? Aproximo-me a ponto de ver que seu tórax ainda balouça, como um lago sob a batuta da brisa, e tranquilizo-me. Franz está bem. Olho para minhas patas peludas, e depois novamente para o homem; admiro-me de como me é estranho o corpo que até segundos atrás eu ainda habitava. Um completo desconhecido.
Basta apenas um movimento rápido, inato, para minhas patas impulsionarem-se do carpete e encontrarem o parapeito da janela sob elas; um bafo fresco e promissor de noite se pulveriza entre meus pelos, espargindo sob minha carcaça a noção de minha própria metamorfose.
Com meu brilho retinto e movimentos ágeis, ganho o telhado vizinho, rascando com presteza o zênite da noite.
Hello. My name... my name will be Kafka. I believe it is a very good name. And from here on, my real name no longer exists.
I live alone in a one-bedroom apartment, accompanied only by a cat. Alone — but accompanied by a cat. The cat's name will be... Franz. Thus, we are one thing, complementary, and I feel more comfortable not being just me. Franz is a black-furred cat, like a raven, with bright eyes, skittish, who rarely bids me good morning or goodbye, but who punctually eats the slop I place in his bowl at the beginning and end of each day. Sometimes I have the illusion that he doesn't live with me, but rather, on the contrary, only visits me to feed, as if my apartment were his convenience store. But Franz is one of my few friends, and I cannot judge him for that. Besides, he is a cat, and you don't expect a cat to be devoted or subservient to you, as you expect of a dog or a lover.
My apartment is quite ordinary; it's in one of those old buildings that punctuate cities the way wrinkles punctuate the wizened faces of the elderly, with bland façades, patched up, painted in tasteless colors already faded, where there are always nosy old ladies and noisy students coexisting. The iron gate opens either with a key or with a buzz from the intercom inside the apartment. Three different keys are needed for me to reach mine, and this irritates me deeply, especially when I need to use the bathroom urgently, occasions on which I end up taking even longer than usual to find them. In the apartment, I possess only a few clumsy pieces of furniture, improvised or rejected by other people; there is an old sofa, cream-colored but quite grimy, the fabric stained by the sun, which was collected from a neighbor who was throwing it away; she knocked on my door and said: "Do you know where I can dispose of a sofa? I can't throw it in the trash or leave it on the sidewalk because they'll fine me. I was thinking of calling a junk removal service, do you perhaps know of one?" And I told her: "Can I keep it?" She peeked into my living room and saw that there were only some crates in front of the TV, under which I kept a handful of old books and newspapers and which were used as makeshift benches. She smiled like a reptile, and said yes, I just had to go there and get it.
In the kitchen, I stack PET bottles and beer cans in a cardboard box; when it's full, I'll throw it out on the street, with the garbage. Despite this, I eat plenty of fruits and vegetables, as they are cheap and this way I save some money. My bathroom is dirty and smells like a gas station restroom... I don't clean it frequently, and I have no qualms about admitting this. Nothing would be more distasteful to me than cleaning my own smell of urine and sweat every two days, encrusted on these dirty tiles. Fortunately, Franz does his business elsewhere, probably on the street, and never at home. If he did it here I would drive him away, for the floor of my apartment is covered by an ugly carpet that is very difficult to clean. I have no picture frames, no telephone, no wardrobe. I keep my clothes in boxes, beside the mattress, and I don't recall if I've ever been photographed. No, I don't have a bed either, but I don't mind, for since I was small I've always preferred to sleep on the floor.
My life is quite simple: I have a motorcycle and I deliver things from here to there. Many things. Anything, even. I don't talk much with the other young men who work at the same company, young men who lead normal and sensible lives, in accordance with what is expected of everyone. I don't want to lead life that way, and for this reason I am quiet, almost mute, and I'm certain they don't have a very positive impression of me. I don't blame them. I wouldn't like someone like me if I myself were a normal, sensible person. But that's not exactly the point.
Franz is lying on the sofa, purring, when I make the resolution. It is night, but the stars in the sky are clouded by this deathly brightness, bathed by the procession of street lamps, billboards, and lit apartment windows, forming a gleaming shield that seems to hide the city. On this night, I decide that I want to experience something new, given that I know I will live forever in the same way, indefinitely; I want to take risks and not always come home until the day Franz dies on the street and no longer returns to eat that disgusting food from his bowl. I don't want to repeat my days until I find myself mad, or until I have a stroke, and am thrown into a crowded emergency room to, moments later, be deposited inside a black bag the same way dog owners deposit their excrement when they take them for a walk in the park. I don't want to be discarded to rot when I'm already old and destitute; there is neither glory nor dignity on the surface of that farewell. Thus, I calculate with coldness and determination a more brutal and premature death. Definitely, I don't want to die old, I can guarantee this.
The resolution is made, as I said. Franz doesn't suspect, I can feel in his slender and customary posture that he hasn't the slightest idea. Many times, I believe he doesn't even notice I exist — surely he thinks the food simply appears on the plate, by magic, twice a day. But Franz will soon know of my decision: in the coming weeks, I will experience a new, outlandish sensation: I want to kill another human being.
First it crossed my mind to kill an animal; to pick up a stray cat from the street and strangle it in front of Franz, curious about what would happen. But Franz would probably just leave. And a cat is just a cat, no matter what they say. Although, when many human beings die, it is sometimes less sad than when a cat dies, for many people. Perhaps my values are not the most distorted, after all: people die every day in these repeated television newscasts, but old ladies cry when their cats die drooling and contorted from strychnine, even though their cats don't cry for them when they slip in their bathrooms, cracking their skulls like rotten fruit that split into shards upon hitting the floor, spilling its pulp. At most, they will lick their blood and return to their affairs, with an air of drowsiness and pragmatism.
It then occurs to me that, if I cannot kill a human being, I would truly like to die trying: to be murdered, therefore. That's it. I decide that first I will try to be murdered. If the curse falls upon me first, I won't need to cut the thread of anyone's life, nor interrupt the course of an existence. I will give this advantage to the world, to fate, like the child in hide-and-seek who counts to a hundred before looking for their little friends. This will be the advantage.
Franz is not home at this moment; in my mind I trace my steps for the week, as if I were a general studying the enemy. I decide to wander for seven days through the city's night, aimlessly, hoping that death will find me and ask me to dance. If I am not killed, I will begin on the eighth day to search for a person to murder, like someone searching for the ideal gift to give a great friend. Deep down, I desire to die as much as I desire to kill, and whichever is possible will leave me satisfied.
On the first night, as well as the second and the third, nothing extraordinary happens. I wander through the labyrinth of asphalt, through the alleys of deciduous and very old trees, without anything unusual occurring. Some taxi drivers make as if to stop, seeing me in desolate and strange places late at night, but my lack of interest soon impels their feet back to the tongue of the accelerator, silencing their intention. Many pass by fearing I am a mugger or a madman. When I wander through the large park, and pass near the military school, some hustlers come to me asking if I want their services; I decline, I'm not interested. I feel nothing for them but an innate compassion. The idea even crosses my mind to kill a hustler, but it seems to me a simplistic and mistaken solution, right off the bat; besides, I don't want this murder to be clothed in any political, social, or prejudicial meaning, if there is indeed a clear distinction between these three spheres. It seems to me there isn't. Besides, I sympathize with their lush happiness and drowsy air. They seem harmless to me; I feel at peace near them. On the third day, however, one of them approaches and asks if, after all, I am competing with them; that I couldn't, at least not without introducing myself and arranging certain details. I reply that no, I'm not competing, I'm not a hustler. I'm just walking through the night because I want to find something. He looks at me, as if I were an alien, and says that's fine, then. He asks me what I'm looking for, but I say I can't tell him. I reassure him that it's nothing to do with him or the other boys. He surely suspects I'm a journalist or a policeman, or something of the sort, I don't know for certain what frightens them or what fascinates them. Nor do I care.
The night, in the belly of the city, is a second world that unfolds. Myriads of headlights cross by me, indolent, unscathed, and continue to pass, as in a surreal procession. This secret and nocturnal life ferments under the umbrella of space, full of shadows and hidden faces; staggering figures and cars with tinted windows. My legs ache and, luckily, my work the next day is reduced because I decide to take only a half shift, during the afternoon. There are not a few drunks or beggars I cross paths with. Often, the line between them is thin; the beggar has a bottle of alcohol under his arm, slumped against the wall; the drunk doesn't know where his house is and has already exhausted his bottle, and now wanders like a soul condemned to the purgatory of night; some sing loudly and hurl insults at trees or dogs. I sympathize with them too, and I note that I would be incapable of murdering such a wretch. It becomes clear that they will die by the hands of life, of time, never by my own.
Wandering through the less noble streets of the city, I encounter a group of prostitutes. They pull me by the arm, call me to do hideous and nefarious things and I, I decline, I don't want anything sexual, not from now on. I feel a bit of disgust toward them, contrary to what I feel for the hustlers, precisely because they have to lie with disgusting men, while homosexuals tend to be charming and intriguing. There is also in them a certain baseness of manner and spirit that was not present on the faces of the hustlers; even their vulgarity seems to me more profound and symbolic than that of the women. I decline repeatedly, and one of the pimps gets irritated with me and says that if I'm not interested, I should go walk somewhere else, I'm making him lose time and money. I come to believe that it is he who will kill me, in the midst of all the whores, and they will run like birds in flight, chirping with their shrill little voices, their multicolored garments barely covering their sweaty flesh, and a police car cleaving the silence and static colors with its vomited red-blue will come to file the report and identify my corpse. But he soon calms down and leaves me in peace; he must think I'm crazy or drunk. And how I wished I were only that.
Only on the fourth day does something interesting occur; fate nearly finishes me off, but, by very little, I escape with my life. As I was walking near the hustlers' haunt, through the slender and somewhat haunted trees of the park, which groaned through a fine and cutting wind, leafy constellations rustling above me, I am surrounded by a group of young men. Most have shaved heads, dress in an extremely peculiar and tasteless manner and, on top of that, are half drunk and inflamed by who knows what hatred. They shout that I'm a hustler, they push me, and I tell them, with some annoyance, that I'm not, that I'm just wandering through the night, waiting for something. They don't listen to me for even a second, and say obscene things and insult me, although I feel no moral humiliation, given that they are not addressing me, but a preformed idea that finds no correspondence in my soul; but I let myself stay, like a scarecrow surrounded by birds that ignore it. I could very well pull a knife from my pocket and kill four or five of them, and then be killed; but I don't want to kill out of anger, that wouldn't suit me.
Then one of them delivers a punch to my face and I fall. I protect my face with determination, my arms caging my eyes and mouth (I don't want to be disfigured or lose teeth) and they fill me with kicks and punches, until my body is blossoming with bruises and I feel my bones ground; threads of blood drip from abrasions on my legs and torso, the metallic and warm taste of blood smears my tongue and lips, when a patrol car repels them, as if they were flies swatted by a rolled-up old newspaper.
The police officers assist me; they ask if I'm a hustler, and I deny it. With some reluctance they hear that I was just walking, I've picked up this habit. They warn me that the idea of walking at this hour is ridiculous and dangerous, and that, unless I'm a hustler and stay close to my group, I shouldn't do this anymore, for my own good and for theirs, as they don't wish to keep collecting beaten bodies every night. I ask why they don't go after the youths, and they laugh. They help me up and ask if I want to be taken to a hospital. For an instant, I think of replying no, there's no need, but I judge that the experience might be interesting. Besides, my body really hurts too much and I don't know if I could walk to my apartment in these conditions.
They place an old blanket on the back seat so I don't soil the vehicle. The idea of killing the two police officers occurs to me, but I quickly dismiss it — first because there's no need for two murders, just one is enough for me. Second, because it would again fall into a murder with some meaning, and I don't want that, really. The patrol car moves in silence through the night, and now I see the myriads of headlights pass as if I were in free fall from a building, at high speed, soon becoming imprecise beams that resemble the laser shots from science fiction films, which are not infrequently shown in the early hours with terrible dubbing on the obscure channels of my television.
Finally, we arrive at the hospital. They toss me onto a bench and notify the receptionist, who seems to already know them; perhaps she's being alerted that I'm a hustler, despite my having repeatedly denied it. I don't know if this happens often or not. They soon leave without saying goodbye.
I don't wait long in the emergency room, seated in the white plastic chairs, amid the retinue of faces crumpled and contorted with fear and pain that contemplate the void of the pale light that drowns the room, with its melancholy halo, for soon I am led inside. They ask me questions, examine my battered body and perform some imaging tests; they conclude there was no serious trauma, but rather severe abrasions, and they put some stitches in my head, where only now I notice I was also bleeding, and in my back, where another larger wound is present. The one who attends me is a young woman, friendly and helpful, and I explain to her that I was just walking at that hour of the night, before she too asks me if I'm a hustler. I read her name on a badge. It seems to me that this scene is no longer an integral part of my life, but rather of a very old and bad film I watched once. I look for the cameras, but soon abandon the idea, which is as ridiculous as walking at night in search of death. I am released and walk home. It's not very far from this large hospital, anyway.
On the fifth, sixth, and seventh day, nothing extraordinary happens. Now it is my turn to play.
***
First, I need to find a victim. This task, in fact, is more difficult than I had imagined. I don't want to kill in public, to be interrupted or lynched, thus sullying the ephemeral and liberating beauty of the moment; no, that wouldn't serve me. I need to choose the victim, perhaps follow her, prepare an ambush and take her either to a deserted place or to my apartment, depending on whether I want to be innocent or guilty afterward. Or, then, choose her on impulse, at random, the same way felines choose their prey, shredding them in their eager teeth, but with the savory placidity of victory.
I decide to wander through the city during the day. I gave the night the chance to murder me, and it failed; now I will cross the day wearing my clean and choked silence, searching to the point of weariness for someone from whom to steal existence by force. I wonder if this would perhaps inflate my own, making me more mobile and happy; if the act of absorbing someone's life would fill me like the gas that fills a balloon, and allow me to fly, in a metaphysical way. Like all the questions I am capable of formulating, this one too seems foolish and outlandish.
When Franz finishes his food and jumps through the window of my ground-floor apartment, my own physiognomy also contorts toward vigilance and freedom, and my muscles, though I don't see them directly, certainly mold a new and unexpected mask on my face. Regardless of what may happen, I feel calm and serene. My spirit is like a calm lake, on an uninhabited plain: nothing trespasses its existence, nothing disturbs its form or its interior; never, in the thousand years that have passed or the thousand years yet to come, has anyone passed by there, so that movement and even time have no meaning here. The meaning of something depends on someone to interpret it, otherwise, it doesn't exist, even if what it intends to represent exists. Meanings are deformities scourged by men, and in my spirit the absurdities are all hanged side by side, with their tongues sticking out and their faces blue and frigid. From the lake of my spirit, guilt and fear are banished, incapable of penetrating or disturbing the core of its conformation.
I also give myself a week's deadline. On the first day, I wander like a specter through the city, and except for a person who, upon bumping into me, apologizes hastily, and the countless hands that stretch out with papers I have not the slightest interest in taking, this sensation is practically confirmed. Most people ignore my existence, as I previously ignored theirs. But, despite this, it delights me that they don't even suspect that I, whom they once crossed paths with, will be a murderer, or perhaps even the murderer of one of them. The secret never shared is an invigorating sanctuary for the one who possesses it.
I enter a shopping center; its imposing building, in light tones, is drawn like an offering to the modernity of which I am a child. The countless stores inside seem like a fair. I see people entering and leaving, with or without bags: they eat ice cream, talk on their cell phones, walk hand in hand, push baby strollers and laugh and speak loudly, in a thirsty yet ignorant offering to life. They consecrate the same modernity that repels me, that islands me and transforms me into a murderer — not by condition of the environment, but by needing to fly from modernity like the maiden who was surrounded by aggressors prefers to fly from the high tower in which she finds herself rather than surrender to violation. I will strike a pointed blow at modernity, I know this. I also know that this gesture will pass unnoticed and the next day will be surpassed; I am a flea trying to topple an elephant. More than anything, I remember that this is, under no circumstances, my intention, although the idea per se flatters me so much.
I outline some targets, but soon mentally cross them off my imaginary list, with the ink of the tacit disinterest that strikes me in bursts: a boy, with a backpack, who, talking on his cell phone, seems tired and bored. A girl, solitary, seated on a bench in the food court, with the face of someone left waiting for someone who will not come. And an old gentleman, who, curiously, smiles at me while I am looking at the magazine covers in front of the window of one of the stores.
I leave the shopping center and wander for a while longer; I pass by some bars, where young people and those who still delude themselves they are young speak in loud tones, in a composition so great and diverse of noises that everything becomes one thing, muffled, a hummed soliloquy, proclaimed by an immense and ethereal insect through the pressing night. When it darkens, I return home.
I repeat the same route on the second day. I come to consider a woman, very elegant, waiting at the bus stop, but I abandon the idea, I don't know quite why.
On the third day, however, I strike up a conversation with a student, while I was sitting on one of the wooden benches of the large central park waiting for some inspiration as to where to go. Like a cat, I was waiting in the sun for some impulse to rise through my muscles and bones.
She sits down beside me: she has lustrous eyes, wears a short white sleeveless blouse that highlights her moderately sized bust. She is, in her way, attractive, and speaks in a sweet manner, trying to denote a cordial naturalness that certainly doesn't suit her. She is nervous; something in me detects it. She begins the conversation calmly, like a snake approaching a rat, taking advantage of its moment of hesitation which, instead of running now, first hopes not to be seen. Thus, I let myself be carried along. Soon we converse about the most varied topics, and she makes a point of agreeing with me on points I myself would hesitate to agree with. The topics extend and she finally asks for my cell phone number. I say I don't use a cell phone, and she seems surprised. A bit embarrassed, thinking that perhaps I lied, the subject veers in this direction and, finally, she takes a pen from her bag and gives me her number written down. "If you want to call me, we can go out sometime."
On the fourth day I walk in the opposite direction from those I walked in the previous days, but I find nothing. My movements are moldered in the sameness of the city, and furtively I feel I will wander forever without ever satisfying my impulse. I consider giving up, finding my intention ridiculous, only to then ridicule the very consideration of halting the intention. The fourth day ended and I am determined to continue, after a brief internal struggle.
On the fifth day, then, I call the girl. She sets a place: it will be at a certain nightclub, which I obviously don't know, in two days, and we will meet at one in the morning by the bar. I now have a victim and a location, and the meeting coincides precisely with the night of the last day of my deadline. Nevertheless, I walk during the sixth day, and spend my savings buying clothes, perfume, some flowers (a bouquet of calla lilies) and white sheets, brand new. On the seventh day, I wander through the city, less alarmed with the duty of finding and with the peace of one who has already obtained what he wanted. Something curious, however, happens.
Two young men pass by me conversing; usually, when people walk close to me, I listen to their conversations and, most of the time finding them ridiculous, I wonder if they don't live in a more deceitful or even criminal manner than I. Is killing something as serious as wasting something wonderful like existence the way they waste it? For all this, I can't help but overhear. They talk about another party, at another nightclub, but on the same night. They speak loudly, not only for one to hear the other, but for the world to hear about their lives, their functioning and the status they try to instill in their images. A flame in me reverberates and comes alive, as if fuel were thrown upon it. Somehow, I know that is where I must go tonight, and not to the meeting with the other woman, who will wait for me at the bar until one-thirty, two o'clock, and will find someone else to fill her physical and psychological needs. Anyway, I've already forgotten her face and her name.
I think she won't hate me so much if she reads in the newspapers that, on the same night I arranged to meet her, I ended up murdering another person at the very same time.
I place a vase with the calla lilies beside my mattress and spread the sheets over it. I dress in the fine-quality shirt and soft pants I bought, put on socks and shoes, spray a few jets of the newly purchased perfume against my body. The essence is citric and gives me a shiver. I note that Franz is not home; I leave his food at the ready, and prepare to leave. I take to the streets, climb their coldness and get into a taxi. Soon I am at the nightclub.
The environment is extremely uncomfortable for me; the music is loud to the point of making people deaf, shouting in each other's ears; people push each other, grab each other, color themselves as if they were millions of colors traveling on a chaotic palette. I search for the faces of the two young men in it: perhaps I should kill one of them. But I don't see them. Or, perhaps, amid all these identical faces, all of them wishing to possess another, to have the superficial and physical self-consciousness that so appeals to them, they have dissolved in this frenetic social broth. I try to act naturally; I move as if dancing, following their strange ritual, becoming part of this one thing, amorphous and bland. I buy drinks one, two, three times. I stop, because I want to be sober so as not to distort my perception or deform my plan.
It is two in the morning. I have already talked to two girls, but couldn't go further. Something stopped me; perhaps they weren't the right people.
Finally, around three o'clock, I see a familiar face. I approach the young woman and ask her, already warning that my question will seem rehearsed or cliché, where we know each other from, because she really seems familiar to me. I am surprised by her response and her friendly smile: "I gave you your stitches! Remember? At the hospital?"
Yes, it is the doctor who attended me the night I was beaten for being thought a hustler. She seems surprised and converses at length with me. I ask why she is alone, and she tells me she came with a group of friends, against her will, and that now they have scattered, drunk, throughout the party. "I was actually thinking of leaving." But we talk for the next half hour and, feeling that she increasingly inclines to softly touch my body with her hand skilled at insinuation, to dance close to my body and speak in my ear, laughing stridently, I finally stick to her enough to leave her with a suspended and lascivious look, flirting less than a palm's width from my mouth. The kiss soon happens, cathartic, and for a good while we float in this unique and enclosed atmosphere, as if on a level above all the rest of the party; we coil dancing in a kind of primitive dance, an offering to unknown gods, but who nonetheless dictate our path. "It is she I will kill," I think. She asks me what I'm thinking about; I kiss her in response, with a smile guarding my face.
When we are leaving, I let myself be seen holding hands with her by several people, on purpose. I see no need for an alibi, for I don't wish to commit the perfect crime, a situation that would lead me to the risk of wanting to repeat it countless times. I don't wish to trivialize my action or transform it into habit. The young woman says goodbye to some friends, who make jokes — I believe about the fact that she is leaving in my company, even though she was forced to come tonight. I believe the same people who joke now will blame themselves tomorrow.
During the taxi ride all the schizophrenic lights of the city and cars parade desperately to embalm the darkness. The taxi driver is taciturn and seems in a hurry. The young woman and I limit ourselves to looking at each other, and exchanging caresses with fingertips pressing or rubbing each other's skin.
My mind now dwells on unimportant details of my own existence. I believe this happens because, by killing the young woman, I will in a way be condemning myself as well; although now I see that these memories are useless, for, in very little time, I will be finished for both life and death. It must be the same with the prisoner who walks down the moldy and shadowy corridor that will lead him to sudden unconsciousness, lost in untamed musings, with few seconds to weigh tons of memories, selecting them at random, or at the whim of evocation.
But the taxi finally arrives at its destination. We both get out. I extend the bills to the disinterested man, who takes them, and I tell him to keep the change. He thanks me, without much enthusiasm, and soon he is accelerating, tinting with the Iberian red of his car the hazy film of the night. She puts her arm around my waist as we climb.
I am now seated on the sofa, while she goes to the bathroom. Franz doesn't seem to be home; where could he be, at this hour? I envy his right not to be human, to hunt his prey and not to build a civilization. Animals must find us humans stupid, with all we erect, compared to the almost nothing we live. I would give anything to trade places with Franz and be free.
When she returns, we spend a few minutes talking; I apologize to her for my apartment being so simple, she makes light of it and says she doesn't mind, she even prefers it this way, given that she lives with her parents and her house is luxurious and impersonal. The feeble phrases are lost like useless substitutes for silence, and soon we let our lips speak through contact instead of the articulation of words. More at ease, she asks why we don't go to the bedroom.
We lie down beneath the white sheet; soon her hands probe my body, her kisses fall with fury upon my neck, her teeth upon my shoulder; with my hands I take her breasts, outline her nipples between my fingers and caress them with my tongue. She is now only in her underwear, and removes my clothes with eagerness; her body slides in an untamed back and forth over my naked body, which already feels the moisture of her sex flooding the white fabric that covers it; with zeal, I caress her thighs, her breasts and lay my kisses across her body, while it conducts a muffled symphony of moans and sighs, equating the body between writhing, stiff with pleasure, and lowering its guard, relaxing the muscles. She takes my hand and guides it inside her underwear, solicitous and out of control, as if she were a runaway train heading toward a massive structure; she can no longer link her lips to mine, and from her mouth escapes only a noisy hiss interspersed with intoxication.
Finally, she removes the last piece of clothing and fits her body into mine; her movements are now brusque, syncopated by an anxious violence, and now they slow down, becoming categorical, sentinels of the next thrusts. We change positions a few times and, finally, she sees her strength exhausted, lets escape the last and longest moan, and becomes a doll, motionless. I lay her down and get on top of her, and in a few minutes I feel all my bestiality pour from my body into hers, in copious, rhythmic, and hot jets of pleasure. We are both surrendered to exhaustion, and we remain embraced for some minutes, without saying anything.
I look through her blue eyes the way a watchmaker would look at the mechanism so dear to him; behind this small aberrant kaleidoscope of colors, brightness and youth, what future is imprisoned, what desires tick? I know, however, that I need to detach myself from the question, to focus my interest only on the act, and not on the thought, or I will let the docile part of humanity anesthetize the bestiality that cohabits with it. And everything would have been fruitless until then.
For if I look through her eyes and by chance incur the error of asking what she feels, and she pours out her reminiscences like one offering fresh fruits on a tray, I will be betrayed by curiosity and empathy, and everything will be inverted. More questions would be forged, antithetical and anxious for conciliation: could I love her? Will this result in, one day, hating her? Will the hermetic routine disorganize us to the point of being objects to each other? When I lie beside her at night, will I think of the lost life, think of other women, of solitude itself, and of the children I could have had instead of my own? This is why it is so important not to know: if I don't create bonds, I won't have to break them. And thus I preserve this rare minute of freedom for myself, and for myself alone.
Her eyelids close. She places her face against my chest and yawns. "Wake me up in a little while?" she asks, in a semblance of a stretch, only to immediately add: "I need to rest a few minutes, before I go."
I nod. I wait for her to fall asleep. Tired and intoxicated as she is, she doesn't even wake when I place her in a supine position and cover her with the sheet. I get up and go to the kitchen. There, I pick up a knife, its wooden handle sustaining the inevitability and madness that are resonating in its chrome blade. There is a touch of poetry in this defenseless and threatening gleam.
I return to the bedroom. Under the thin white sheet, the relief of her breasts and her snoring announce themselves, in perfect and virtuous ignorance of the following minutes. I position the blade perpendicularly, at the uppermost part of the abdomen; I saw on television that a deep cut in this location would lacerate the aorta and cause almost immediate death.
Without hesitation, I sink the blade into her flesh, withdraw it and, quickly, a stain red as wine impregnates the white of the fabric, in a vigorous and uncontrollable expansion. I cover her mouth with my other hand, cupped, but she can't even articulate a scream; I feel the spasm that crosses her muscles, the resistance to abandoning life without prior notice, and her abysmal and ignorant eyes having few seconds to understand too many things. The brightness of the eyes is transformed into a fixed opacity, no less beautiful, that mingles with the inertia to which the body surrenders. Just a few more minutes, and it is all over.
I observe the static body and the viscous impression of its transience that has been recorded on the sheet; I take the three calla lilies and rest them on the site of the wound; their petals stain with this scarlet ink on the lower face, and preserve the untouched whiteness on the other. A meow makes itself heard in the living room.
I sit on the old sofa, with Franz beside me. He continues licking himself, indifferent to everything. He looks disinterestedly at the bloody arabesque on my hands, and at the red stains on my shirt, perhaps even with some annoyance. His gaze seems to contain more boredom than reproach, as if inquiring: "You idiot, who is going to fill my bowl from now on?" I think of answering him: "You know how to manage. You always have." But nothing comes out of my mouth.
I feel a strange sensation of lightness. I close my eyes and I am in the fields of my childhood, surrounded by flowers and dogs, dancing in a confused circle; a music seems to come from afar, but I cannot identify it. The sky is overcast, but it is the air that seems to have stagnated, solidified, and the whole scene suddenly freezes; everything around me freezes, and there is only a small perimeter in which I can move. I notice there is a knife before me. Everyone looks at me, encouraging me; I take it in my hands and, holding its handle firmly, I plunge it into my stomach and then twist it. I feel as if I had removed a plug from a tank that was overflowing, full of water and filth, and everything drains away, drained to an impalpable unknowing. It seems my soul drains through the drain of my stomach, liberating me to infinity.
I open my eyes again. I observe the wristwatch on my left hand; I clean it with my shirt sleeve, to remove the blood that smears the display. It is past five in the morning. Franz rises and stretches, his whole spine arched, his mouth half-open, releasing a strange squeal. "It must be the squeal of death," I think, with a look of supplication and satisfaction. I look around imagining the old lady in her black tunic, pointing the scythe at me. I contemplate, then, the half-open door of the bedroom and realize I had forgotten for a moment the existence of the young woman. "Perhaps death is still there, like a vulture." I could remove the young woman from there, try to dispose of her body and clear my name, but that would be a useless exercise. Perhaps what I sought from the beginning was not only the crime, but also the punishment. Or perhaps I hadn't even considered that there was anything beyond the crime itself.
An ambulance tears through the night with its sleepless and villainous wails; this noise makes butterflies explode in my stomach, and fills me with nausea. I dream of the knife in my belly, the open drain of my rottenness. I calculate how long it would take for them to notice the young woman's absence, collect the testimonies and reach me; or for a neighbor to report the foul smell of her putrefied body wafting through the window. What would it be like if they found my bloodless body in the middle of the living room? Would Franz still be here, unequivocal accomplice to this madness?
There is still much time. I throw my body against the back of the sofa and wait for some sign of sleep or despair to betray itself on my countenance. The ambulance has disappeared in the distance as if I had suffocated its sirens with the pitch hands of the night.
I hear Franz's steps drumming toward me. My body is so light. I close my eyes: it seems the world has dissolved like a piece of bread abandoned in a glass of water, or a paper boat swallowed by the flow of rain that accumulates at the edge of the gutter. My body no longer seems like my body, and my thoughts no longer seem like my thoughts. Is the world leavening? Or am I, perhaps, dying?
Where is Franz? I no longer feel his presence in the room, but I am certain he hasn't moved a single centimeter since I closed my eyes; has his jet-black body evaporated? I try to open my eyes, but I can't: I am trapped; some horrible transformation is taking place — perhaps I have been engulfed by an abstraction, by a rare event, and am struggling within an unannounced regret, of a wasted life. But how, if I feel so calm? Can there be regret already resigned? Or is this something else, perhaps? Perhaps it is God punishing me for having categorically spit on his distorted precepts, on the degraded rules conducted and drawn by men. A long spasm seems to compress my body, crush my bones, scrape my flesh like millions of sharp teeth — all the odors of the world, all the flavors, the sounds, converge against me and I feel a pressing and dense despair disintegrate me.
And then everything goes silent at once, and an acute relief rises in my body and merges me into something new.
I open my eyes. On the sofa, the man I was has his head hanging to one side. Is he dead? I approach to the point of seeing that his chest still sways, like a lake under the baton of the breeze, and I am reassured. Franz is well. I look at my furry paws, and then again at the man; I marvel at how strange the body I inhabited until seconds ago now is to me. A complete stranger.
It takes only one quick, innate movement for my paws to propel themselves from the carpet and find the windowsill beneath them; a fresh and promising breath of night pulverizes between my fur, spreading beneath my carcass the notion of my own metamorphosis.
With my jet-black gleam and agile movements, I gain the neighboring rooftop, scratching with swiftness the zenith of the night.
Hola. Mi nombre... mi nombre será Kafka. Creo que es un nombre muy bueno. Y a partir de aquí, mi nombre real ya no existe.
Vivo solo en un apartamento de un dormitorio, acompañado solamente por un gato. Solo — pero acompañado de un gato. El nombre del gato será... Franz. Así, somos una sola cosa, complementaria, y me siento más cómodo no siendo solo yo. Franz es un gato de pelo negro, tal cual un cuervo, de ojos brillantes, arisco, que rara vez me da los buenos días o se despide, pero que come puntualmente la bazofia que coloco en su cuenco al principio y al final del día. A veces tengo la ilusión de que no vive conmigo, sino que, por el contrario, solo me visita para alimentarse, como si mi apartamento fuera su tienda de conveniencia. Pero Franz es uno de mis pocos amigos, y no puedo juzgarlo por eso. Además, es un gato, y no esperas que un gato te sea devoto o servil, como esperas de un perro o de una amante.
Mi apartamento es bastante ordinario; está en uno de esos edificios antiguos, que puntúan las ciudades como las arrugas puntúan los rostros apergaminados de los viejos, con fachadas insulsas, remendadas, pintadas de colores de mal gusto y ya desvaídos, donde siempre hay señoras mayores entrometidas y estudiantes ruidosos coexistiendo. El portón de hierro se abre o con llave o con un toque del interfono desde dentro del apartamento. Se necesitan tres llaves diferentes para llegar al mío, y esto me irrita profundamente, especialmente cuando necesito ir al baño con urgencia, ocasiones en que acabo tardando aún más de lo normal en encontrarlas. En el apartamento, poseo solo algunos muebles torpes, improvisados o que fueron rechazados por otras personas; hay un sofá viejo, de color crema, pero bastante mugriento, la tela manchada por el sol, que fue recogido de una vecina que lo estaba tirando; llamó a mi puerta y dijo: "¿Sabes dónde puedo desechar un sofá? No puedo tirarlo a la basura ni dejarlo en la acera porque me pondrán una multa. Estuve pensando en llamar a un servicio de recogida de trastos, ¿quizás conoces alguno?". Y yo le dije: "¿Puedo quedármelo?". Ella se asomó a mi sala y vio que solo había algunos cajones frente al televisor, debajo de los cuales yo guardaba un puñado de libros y periódicos viejos y que eran usados a modo de bancos. Sonrió como un reptil, y dijo que sí, que solo tenía que ir allí a buscarlo.
En la cocina, apilo botellas de plástico y latas de cerveza en una caja de cartón; cuando esté llena, la tiraré a la calle, con la basura. A pesar de esto, como bastantes frutas y verduras, pues son baratas y así ahorro algo de dinero. Mi baño está sucio y huele como un baño de gasolinera... no lo limpio frecuentemente, y no tengo reparo en admitirlo. Nada me sería más repugnante que limpiar cada dos días mi propio olor a orina y sudor, incrustado en esos azulejos sucios. Afortunadamente, Franz hace sus necesidades en otros lugares, probablemente en la calle, y nunca en casa. Si las hiciera aquí lo echaría, pues el suelo de mi apartamento está cubierto por una alfombra fea y muy difícil de limpiar. No tengo portarretratos, teléfono ni armario. Guardo mi ropa en cajas, al lado del colchón, y no recuerdo si alguna vez me han fotografiado. No, tampoco tengo una cama, pero no me importa, pues desde pequeño siempre preferí dormir en el suelo.
Mi vida es bastante simple: tengo una moto y entrego cosas de aquí para allá. Muchas cosas. Cualquier cosa, incluso. No converso mucho con los otros muchachos que trabajan en la misma compañía, muchachos que llevan vidas normales y sensatas, de acuerdo con lo que se espera de todo el mundo. Yo no quiero llevar la vida de ese modo, y por eso soy callado, casi mudo, y estoy seguro de que ellos no tienen una impresión muy positiva de mí. No los culpo. No me gustaría alguien como yo si yo mismo fuera una persona normal, sensata. Pero no es ese el punto, exactamente.
Franz está echado en el sofá, ronroneando, cuando tomo la resolución. Es de noche, pero las estrellas en el cielo están empañadas por esa claridad mortecina, bañada por la procesión de farolas, vallas publicitarias y ventanas de apartamentos iluminadas, formando un escudo reluciente que parece esconder la ciudad. Esta noche, decido que quiero experimentar algo nuevo, dado que sé que viviré para siempre del mismo modo, indefinidamente; quiero correr riesgos y no llegar siempre a casa hasta el día en que Franz muera en la calle y no regrese más para comer esa comida asquerosa de su cuenco. No quiero repetir mis días hasta encontrarme loco, o hasta que tenga un derrame, y sea arrojado a una urgencia abarrotada para, instantes después, ser depositado dentro de una bolsa negra del mismo modo que los dueños de perros depositan sus excrementos cuando los llevan a pasear al parque. No quiero ser descartado para pudrirme cuando ya esté viejo e indigente; no hay ni gloria ni dignidad en la superficie de esa despedida. Por tanto, calculo con frialdad y ahínco una muerte más brutal y precoz. Definitivamente, no quiero morir viejo, puedo garantizar esto.
La resolución está tomada, como dije. Franz no sospecha, puedo sentir en su postura esbelta y habitual que no tiene la menor idea. Muchas veces, creo que ni siquiera nota que existo — seguramente piensa que la comida simplemente aparece en el plato, por arte de magia, dos veces al día. Pero Franz pronto sabrá de mi decisión: en las próximas semanas, experimentaré una sensación nueva, descabellada: quiero matar a otro ser humano.
Primero se me pasó por la cabeza matar a un animal; coger un gato vagabundo de la calle y estrangularlo frente a Franz, curioso de lo que pasaría. Pero Franz probablemente simplemente se iría. Y un gato es solo un gato, no importa lo que digan. Aunque, cuando muchos seres humanos mueren, es a veces menos triste que cuando muere un gato, para muchas personas. Quizás no sean mis valores los más distorsionados, al fin y al cabo: mueren personas todos los días en esos noticiarios repetidos de la televisión, pero las viejas señoras lloran cuando sus gatos mueren babeando y retorcidos por estricnina, aunque sus gatos no lloren por ellas cuando se resbalen en sus baños, agrietándose el cráneo como una fruta podrida que se abrió en astillas al caer al suelo, vertiendo su pulpa. A lo sumo, lamerán su sangre y volverán a sus quehaceres, con aire de modorra y pragmatismo.
Se me ocurre entonces que, si no puedo matar a un ser humano, me gustaría de verdad morir intentándolo: ser asesinado, por tanto. Eso es. Decido que primero intentaré ser asesinado. Si la maldición se abate primero sobre mí, no necesitaré cortar el hilo conductor de la vida de nadie, ni interrumpir el curso de una existencia. Daré esa ventaja al mundo, al destino, como el niño que en el juego del escondite cuenta hasta cien antes de buscar a sus amiguitos. Esa será la ventaja.
Franz no está en casa en este momento; con la mente trazo mis pasos para la semana, como si fuera un general estudiando al enemigo. Decido deambular durante siete días por la noche de la ciudad, sin rumbo, esperando que la muerte me encuentre y me saque a bailar. Si no soy muerto, buscaré a partir del octavo día a una persona para asesinar, como quien busca el regalo ideal para entregar a un gran amigo. En el fondo, deseo tanto morir como deseo matar, y aquel que me sea posible me dejará satisfecho.
En la primera noche, así como en la segunda y la tercera, nada extraordinario sucede. Vago por el laberinto de asfalto, a través de las alamedas de árboles caducos y viejísimos, sin que nada inusual ocurra. Algunos taxistas hacen ademán de parar, viéndome en lugares desiertos y extraños a altas horas de la noche, pero mi falta de interés pronto impulsa sus pies nuevamente a la lengua del acelerador, callando su intención. Muchos pasan con miedo de que yo sea un asaltante o un loco. Cuando vago por el gran parque, y paso cerca del colegio militar, algunos chaperos vienen a mi encuentro preguntando si quiero sus servicios; niego, no estoy interesado. No siento nada por ellos que no sea una compasión innata. Hasta se me cruza la idea de matar a un chapero, pero me parece una solución simplista y equivocada, de entrada; además, no deseo que este asesinato se revista de ningún significado político, social o prejuicioso, si es que hay un discernimiento claro entre esas tres esferas. Me parece que no, que no lo hay. Además, simpatizo con la felicidad lozana y el aire de modorra de ellos. Me parecen inofensivos; me siento en paz cerca de ellos. En el tercer día, sin embargo, uno de ellos se acerca y pregunta si, al fin y al cabo, estoy compitiendo con ellos; que no podría, al menos no sin presentarme y acordar ciertos detalles. Yo replico que no, no estoy compitiendo, no soy un chapero. Solo estoy caminando por la noche porque quiero encontrar algo. Él me mira, como si yo fuera un extraterrestre, y dice que está bien, entonces. Me pregunta qué estoy buscando, pero le digo que no puedo informarle. Lo tranquilizo de que no es nada con él o con los otros muchachos. Seguramente sospecha que soy un periodista o un policía, u otra cosa por el estilo, no sé con certeza qué les asusta o qué les fascina. Tampoco me importa.
La noche, en el vientre de la ciudad, es un segundo mundo que se descorre. Miríadas de faros cruzan por mí, indolentes, incólumes, y continúan pasando, como en un cortejo surreal. Esta vida secreta y nocturna fermenta bajo el paraguas del espacio, llena de sombras y rostros escondidos; figuras tambaleantes y coches con cristales tintados. Me duelen las piernas y, con suerte, mi trabajo al día siguiente está reducido porque decido coger solo medio turno, durante el período de la tarde. No son pocos los borrachos o mendigos con los que me cruzo. Muchas veces, la línea entre ambos es tenue; el mendigo tiene una botella de bebida alcohólica bajo el brazo, caído contra la pared; el borracho no sabe dónde está su casa y ya agotó su botella de bebida, y ahora deambula como un alma condenada por el purgatorio de la noche; algunos cantan alto y dicen improperios a los árboles o a los perros. También simpatizo con ellos, y noto que sería incapaz de asesinar a un infeliz así. Queda claro que ellos morirán por las manos de la vida, del tiempo, jamás por las mías propias.
Vagando por las calles menos nobles de la ciudad, encuentro un grupo de prostitutas. Me tiran del brazo, me llaman para hacer cosas horribles y nefastas y yo, yo niego, no quiero nada sexual, no a partir de ahora. Siento un poco de asco de ellas, al contrario de lo que siento por los chaperos, justamente porque ellas tienen que acostarse con hombres asquerosos, mientras que los homosexuales suelen ser encantadores e intrigantes. También hay en ellas cierta bajeza de modales y ánimo que no se presentaba en el rostro de los chaperos; hasta la vulgaridad de estos me parece más profunda y simbólica que la de ellas. Niego repetidas veces, y uno de los chulos se irrita conmigo y dice que si no estoy interesado, que me vaya a andar por otros lados, le estoy haciendo perder tiempo y dinero. Llego a creer que es él quien va a matarme, en medio de todas las putas, y ellas correrán como aves en desbandada, piando con sus vocecillas agudas, sus vestidos multicolores cubriendo apenas la carne sudada, y un coche de policía hendiendo el silencio y los colores estáticos con su rojo-azul vomitado vendrá a levantar el acta e identificar mi cadáver. Pero él pronto se calma y me deja en paz; debe pensar que estoy loco o borracho. Y cómo no quisiera yo ser solo eso.
Solo en el cuarto día algo interesante ocurre; el destino casi acaba conmigo, pero, por muy poco, escapo con vida. Cuando caminaba en las proximidades del reducto de los chaperos, por los árboles esbeltos y medio embrujados del parque, que gemían a través de un viento fino y cortante, frondosas constelaciones susurrando sobre mí, soy rodeado por un grupo de jóvenes. La mayoría tiene el pelo rapado, se viste de un modo extremadamente peculiar y de mal gusto y, encima, están medio borrachos e inflamados por no sé qué odio. Gritan que soy un chapero, me empujan, y les digo, con cierta contrariedad, que no lo soy, que solo estoy vagando por la noche, esperando algo. No me escuchan ni por un segundo, y dicen cosas obscenas y me ofenden, aunque yo no sienta humillación moral alguna, dado que ellos no se dirigen a mí, sino a una idea formada que no encuentra correspondencia en mi alma; pero me dejo estar, como un espantapájaros rodeado por las aves que lo ignoran. Yo podría muy bien sacar una navaja del bolsillo y matar a cuatro o cinco de ellos, y después ser muerto; pero no quiero matar por rabia, eso no me sería apropiado.
Entonces uno de ellos me propina un puñetazo en la cara y caigo. Protejo el rostro con decisión, los brazos enjaulando mis ojos y mi boca (no quiero quedar deformado ni perder dientes) y me llenan de patadas y puñetazos, hasta que mi cuerpo está florecido de hematomas y siento mis huesos molidos; hilitos de sangre escurren de escoriaciones en mis piernas y tronco, el gusto metálico y tibio de la sangre embadurna mi lengua y mis labios, cuando entonces un coche patrulla los repele, como si fueran moscas golpeadas por un rollo de periódico viejo.
Los policías me auxilian; preguntan si soy un chapero, y lo niego. Con cierta reticencia escuchan que solo estaba caminando, cogí esta costumbre. Me advierten que la idea de caminar a estas horas es ridícula y peligrosa, y que, a menos que sea un chapero y me quede cerca de mi grupo, no debería hacer esto más, por mi bien y por el de ellos, que no desean estar recogiendo cuerpos apaleados cada noche. Les pregunto por qué no van detrás de los jóvenes, y se ríen. Me ayudan a levantarme y preguntan si quiero ser llevado a un hospital. Por un instante, pienso en replicar que no, que no hay necesidad, pero juzgo que la experiencia puede ser interesante. Además, realmente me duele demasiado el cuerpo y no sé si podría caminar hasta mi apartamento en estas condiciones.
Colocan una manta vieja en el asiento trasero para que no ensucie el vehículo. Se me ocurre la idea de matar a los dos policías, pero pronto la descarto — primero porque no hay necesidad de dos asesinatos, solo uno me basta. Segundo, porque recaería nuevamente en un asesinato con algún sentido, y no deseo eso, realmente. El coche patrulla avanza en silencio por la noche, y ahora veo las miríadas de faros pasar como si estuviera en caída libre de un edificio, a alta velocidad, convirtiéndose pronto en haces imprecisos que recuerdan los disparos láser de las películas de ciencia ficción, que no pocas veces son emitidas de madrugada con pésimo doblaje en los canales desconocidos de mi televisor.
Finalmente, llegamos al hospital. Me arrojan en un banco y avisan a la recepcionista, que parece que ya los conoce; tal vez esté alertando de que soy un chapero, a pesar de haberlo negado repetidas veces. No sé si esto pasa mucho o no. Ellos pronto se van sin despedirse.
No espero mucho tiempo en urgencias, sentado en las sillas blancas de plástico, en medio del séquito de caras aplastadas y retorcidas de miedo y dolor que contemplan el vacío de la luz pálida que inunda el recinto, con su halo melancólico, pues pronto soy conducido adentro. Me hacen preguntas, examinan mi cuerpo maltrecho y realizan algunos exámenes de imagen; concluyen que no hubo un traumatismo serio, sino escoriaciones graves, y me dan algunos puntos en la cabeza, donde solo ahora noto que también estaba sangrando, y en mi espalda, donde otra herida mayor está presente. Quien me atiende es una joven simpática y servicial, y le explico que solo estaba andando a esa hora de la noche, antes de que también ella me pregunte si soy un chapero. Leo su nombre en una placa. Me parece que esta escena ya no es parte integrante de mi vida, sino de una película muy antigua y mala que vi una vez. Busco las cámaras, pero pronto desisto de la idea, que es tan ridícula como andar de noche en busca de la muerte. Soy dado de alta y camino hasta casa. No queda muy lejos de este gran hospital, de todas formas.
En el quinto, el sexto y el séptimo día, nada extraordinario sucede. Ahora es mi turno de jugar.
***
Primero, necesito encontrar una víctima. Esta tarea, en verdad, es más difícil de lo que había imaginado. No quiero matar en público, ser interrumpido o linchado, ensuciando así la belleza efímera y liberadora del momento; no, eso no me serviría. Necesito elegir a la víctima, tal vez seguirla, preparar una emboscada y llevarla o a un lugar desierto o a mi apartamento, dependiendo de si quiero ser inocente o culpable después. O, entonces, elegirla en un impulso, al azar, del mismo modo que los felinos eligen a sus presas, desgarrándolas en sus dientes ávidos, pero con la placidez sabrosa de la victoria.
Decido vagar por la ciudad durante el día. Le di a la noche la oportunidad de asesinarme, y falló; ahora atravesaré el día vistiendo mi silencio limpio y atragantado, buscando hasta el hastío a alguien a quien robar la existencia por la fuerza. Me pregunto si esto acaso inflaría la mía propia, haciéndome más móvil y feliz; si el hecho de absorber la vida de alguien me llenaría como el gas que llena un globo, y me permitiría volar, de un modo metafísico. Como todas las preguntas que soy capaz de formular, también esta me parece tonta y descabellada.
Cuando Franz termina su comida y salta por la ventana de mi apartamento de planta baja, también mi fisonomía se contorsiona hacia el acecho y hacia la libertad, y mis músculos, aunque no los vea directamente, ciertamente moldean una máscara nueva e inesperada en mi rostro. A pesar de lo que pueda pasar, me siento calmo y sereno. Mi espíritu es como un lago calmo, en una llanura deshabitada: nada traspasa su existencia, nada perturba su forma o su interior; nunca, en los mil años que pasaron o en los mil años que han de venir, alguien pasó por allí, de modo que el movimiento e incluso el tiempo no poseen significado alguno aquí. El sentido de algo depende de alguien que lo interprete, de lo contrario, no existe, aunque lo que pretende representar exista. Los sentidos son deformidades azotadas por los hombres, y en mi espíritu los disparates están todos ahorcados lado a lado, con sus lenguas fuera y los rostros azules y gélidos. Del lago de mi espíritu, la culpa y el temor están desterrados, incapaces de penetrar o perturbar el núcleo de su conformación.
También me doy una semana de plazo. En el primer día, vago como un espectro por la ciudad, y salvo una persona que, al chocar conmigo, pide disculpas atropelladamente, y las innumerables manos que se estiran con papeles por los que no tengo el mínimo interés en coger, esa sensación prácticamente se confirma. La mayoría de las personas ignora mi existencia, como yo anteriormente ya ignoré la de ellas. Pero, a pesar de esto, me encanta que ni siquiera sospechen que yo, por quien un día ya cruzaron, seré un asesino, o tal vez hasta el asesino de una de ellas. El secreto jamás compartido es un santuario vigorizante para aquel que lo posee.
Entro en un centro comercial; su imponente edificio, de tonos claros, se dibuja como una ofrenda para la modernidad de la que soy hijo. Las innumerables tiendas en su interior parecen una feria. Veo a las personas entrando y saliendo, con o sin bolsas: comen helados, hablan por sus móviles, andan de la mano, empujan carritos de bebés y ríen y hablan alto, en una ofrenda sedienta, pero ignorante, a la vida. Ellas consagran la misma modernidad que me repele, que me aísla y que me transforma en asesino — no por condición del medio, sino por necesitar volar de la modernidad como la doncella que fue rodeada por agresores prefiere volar de la alta torre en que se encuentra a entregarse a la violación. Voy a asestar un golpe puntual a la modernidad, lo sé. Sé también que ese gesto pasará inadvertido y al día siguiente estará superado; soy una pulga intentando derribar a un elefante. Más que nada, recuerdo que esa no es, bajo ninguna circunstancia, mi intención, aunque la idea per se me halague tanto.
Delineo algunos blancos, pero pronto los tacho mentalmente de mi lista imaginaria, con la tinta del desinterés tácito que me acomete en arrebatos: un chico, con mochila, que, hablando por su móvil, parece cansado y aburrido. Una chica, solitaria, sentada en un banco de la zona de comidas, con cara de quien fue dejada esperando a alguien que no vendrá. Y un viejo señor, que, curiosamente, me sonríe mientras estoy mirando las portadas de las revistas frente al escaparate de una de las tiendas.
Dejo el centro comercial y vago un rato más; paso por algunos bares, donde los jóvenes y aquellos que todavía se ilusionan con que son jóvenes hablan en tono alto, en una composición tan grande y diversa de ruidos que todo se convierte en una sola cosa, amortiguada, un soliloquio zumbado, proclamado por un inmenso y etéreo insecto a través de la noche apremiante. Cuando oscurece, regreso a casa.
Repito la misma ruta en el segundo día. Llego a considerar a una mujer, muy elegante, esperando en la parada del autobús, pero desisto de la idea, no sé bien por qué.
En el tercer día, sin embargo, entablo una conversación con una estudiante, mientras esperaba sentado en uno de los bancos de madera del gran parque central buscando una inspiración de hacia dónde seguir. Como un gato, esperaba al sol que algún impulso asomara por mis músculos y huesos.
Ella se sienta a mi lado: tiene ojos lustrosos, viste una blusa blanca corta y sin mangas que destaca el busto de tamaño moderado. Es, a su modo, atractiva, y habla de un modo dulce, queriendo denotar una naturalidad cordial que ciertamente no le queda bien. Está nerviosa; algo en mí lo detecta. Ella comienza la conversación con calma, como una serpiente al aproximarse a un ratón, aprovechándose del momento de vacilación de este que, en vez de correr desde ya, espera primero no ser visto. Así, me dejo llevar. Pronto conversamos sobre los más variados temas, y ella se empeña en concordar conmigo en puntos en los que yo mismo dudaría en concordar. Los temas se extienden y ella finalmente pide mi número de móvil. Le digo que no uso teléfono móvil, y ella se muestra sorprendida. Un poco avergonzada, pensando que tal vez haya mentido, el asunto se encamina por esa dirección y, finalmente, ella saca un bolígrafo del bolso y me da su número anotado. "Si quieres llamarme, podemos salir algún día de estos."
En el cuarto día camino hacia el lado contrario de los que anduve en los días anteriores, pero nada encuentro. Mis movimientos están enmohecidos en la monotonía de la ciudad, y furtivamente siento que voy a vagar para siempre sin jamás satisfacer mi ímpetu. Pienso en desistir, encontrando mi intención ridícula, para enseguida ridiculizar la propia idea de frenar la intención. El cuarto día se acabó y estoy decidido a continuar, tras breve debate interno.
En el quinto día, entonces, llamo a la chica. Ella fija un lugar: será en una determinada discoteca, que obviamente desconozco, dentro de dos días, y nos encontraremos a la una de la madrugada junto al bar. Tengo ahora una víctima y un lugar, y el encuentro coincide justamente con la noche del último día de mi plazo. No obstante, camino durante el sexto día, y gasto mis ahorros comprando ropa, perfume, algunas flores (un ramo de calas) y sábanas blancas, nuevísimas. En el séptimo día, peregrino por la ciudad, menos alarmado con el deber de encontrar y con la paz de quien ya consiguió lo que quería. Algo curioso, sin embargo, sucede.
Dos jóvenes pasan por mí conversando; generalmente, cuando personas caminan cerca de mí, escucho sus conversaciones y, la mayoría de las veces encontrándolas ridículas, imagino si no viven de modo más engañoso o hasta criminal que yo. ¿Matar es algo tan grave como desperdiciar algo maravilloso como la existencia del modo que ellas la desperdician? Por todo esto, no puedo dejar de escuchar. Hablan sobre otra fiesta, en otra discoteca, pero en la misma noche. Hablan alto, no solo para que uno oiga al otro, sino para que el mundo oiga sobre sus vidas, sobre sus funcionamientos y el estatus que intentan inculcar en sus imágenes. Una llama en mí reverbera y se aviva, como si combustible fuera arrojado sobre ella. De algún modo, sé que es allí adonde tengo que ir esta noche, y no al encuentro con la otra mujer, que se quedará esperándome en el bar hasta la una y media, las dos, y encontrará a otro alguien para llenar sus necesidades físicas y psicológicas. De cualquier modo, ya olvidé su cara y su nombre.
Pienso que ella no me odiará tanto si llega a leer en los periódicos que, la misma noche en que quedé con ella, acabé asesinando a otra persona a la mismísima hora.
Coloco un jarrón con las calas al lado de mi colchón y extiendo las sábanas sobre él. Me visto con la camisa de fina calidad y el pantalón suave que compré, me pongo los calcetines y me calzo los zapatos, rocío algunos chorros del perfume recién comprado contra mi cuerpo. La esencia es cítrica y me causa un escalofrío. Noto que Franz no está en casa; dejo su comida preparada, y me preparo para salir. Gano las calles, escalo su frialdad y entro en un taxi. Pronto estoy en la discoteca.
El ambiente es extremadamente incómodo para mí; la música está alta al punto de dejar a las personas sordas, gritando unas en los oídos de las otras; las personas se empujan, se agarran, se tiñen como si fueran millones de colores viajando en una paleta caótica. Busco la cara de los dos jóvenes en ella: tal vez deba matar a uno de ellos. Pero no los veo. O, tal vez, en medio de todas esas caras iguales, todas ellas deseando poseer a un otro, tener la conciencia de sí superficial y física que tanto las apetece, ellos se hayan diluido en ese frenético caldo social. Intento actuar con naturalidad; me muevo como si bailara, siguiendo su extraño ritual, convirtiéndome en parte de esa una sola cosa, amorfa e insulsa. Compro bebida una, dos, tres veces. Paro, pues quiero estar sobrio para no distorsionar mi percepción o deformar mi plan.
Son las dos de la madrugada. Ya conversé con dos chicas, pero no pude ir adelante. Algo me frenó; tal vez no fueran las personas correctas.
Finalmente, hacia las tres, veo un rostro familiar. Me aproximo a la chica y le pregunto, ya avisando que mi pregunta va a parecer ensayada o cliché, de dónde nos conocemos, porque ella realmente me parece familiar. Me sorprendo con su respuesta y con su sonrisa amigable: "¡Yo te di los puntos! ¿Recuerdas? ¿En el hospital?".
Sí, es la médica que me atendió la noche en que fui apaleado por pensar que yo era un chapero. Ella se muestra sorprendida y conversa largamente conmigo. Pregunto por qué está sola, y me dice que vino con un grupo de amigos, contra su voluntad, y que ahora se han dispersado, borrachos, por la fiesta. "De hecho estaba pensando en irme." Pero conversamos durante la siguiente media hora y, sintiendo que cada vez más ella se inclina a tocar suavemente mi cuerpo con su mano hábil para la insinuación, a bailar cerca de mi cuerpo y a hablar en mi oído, riendo estridentemente, finalmente me pego a ella lo suficiente para dejarla con una mirada suspendida y lasciva, coqueteando a menos de un palmo de mi boca. El beso pronto sucede, catártico, y durante un buen rato flotamos en esa atmósfera única y cerrada, como si en un nivel por encima de todo el resto de la fiesta; nos enroscamos bailando en una especie de danza primitiva, en una ofrenda a dioses desconocidos, pero que aun así dictan nuestro camino. "Es a ella a quien mataré", pienso. Ella me pregunta en qué estoy pensando; la beso en respuesta, con una sonrisa resguardando mi rostro.
Cuando estamos saliendo, me dejo ver de la mano con ella por varias personas, a propósito. No veo la necesidad de una coartada, pues no deseo cometer el crimen perfecto, situación que me llevaría al riesgo de querer repetirlo incontables veces. No deseo banalizar mi acción ni transformarla en hábito. La chica se despide de algunos amigos, que hacen bromas — creo que acerca del hecho de que ella se vaya en mi compañía, aunque haya sido forzada a venir esta noche. Creo que las mismas personas que hacen bromas ahora se culparán mañana.
Durante el trayecto en taxi desfilan todas las luces esquizofrénicas de la ciudad y de los coches desaforadamente embalsamando la oscuridad. El taxista es taciturno y parece apurado. Yo y la chica nos limitamos a mirarnos el uno al otro, y a intercambiar caricias con la punta de los dedos presionando o frotando la piel del otro.
Mi mente ahora se detiene en detalles sin importancia de mi propia existencia. Creo que esto sucede porque, al matar a la chica, de cierto modo estaré condenándome también; aunque ahora veo que esos recuerdos son inútiles, pues, en poquísimo tiempo, estaré acabado tanto para la vida como para la muerte. Debe ser así también con el prisionero que anda por el mohoso y sombrío pasillo que lo llevará a la inconsciencia súbita, perdido en divagaciones indómitas, con pocos segundos para pesar toneladas de recuerdos, seleccionándolos al azar, o al sabor de la evocación.
Pero el taxi finalmente llega al destino. Bajamos ambos. Extiendo los billetes al hombre desinteresado, que los coge, y le digo que se quede con el cambio. Agradece, sin mucho entusiasmo, y pronto está acelerando, tiñendo con el rojo ibérico de su coche la película empañada de la noche. Ella pone su brazo alrededor de mi cintura mientras subimos.
Estoy ahora sentado en el sofá, mientras ella va al baño. Franz no parece estar en casa; ¿dónde andará, a esta hora? Envidio su derecho de no ser humano, de cazar a sus presas y de no construir una civilización. Los animales deben pensar que nosotros los humanos somos estúpidos, con todo lo que erigimos, comparado con el casi nada que vivimos. Daría todo por cambiar de lugar con Franz y ser libre.
Cuando ella regresa, gastamos unos pocos minutos conversando; le pido disculpas por que mi apartamento sea tan simple, ella le quita importancia y dice que no le importa, hasta lo prefiere así, dado que vive con sus padres y su casa es lujosa e impersonal. Las frases débiles se pierden como sucedáneos inútiles para el silencio, y pronto dejamos que los labios hablen por el contacto en lugar de la articulación de palabras. Más a gusto, ella pregunta por qué no vamos al dormitorio.
Nos acostamos debajo de la sábana blanca; pronto sus manos escudriñan mi cuerpo, sus besos se derraman con furia sobre mi cuello, sus dientes sobre mi hombro; con mis manos cojo sus pechos, delineo sus pezones entre mis dedos y los acaricio con mi lengua. Ella está ahora solo en su ropa interior, y retira con avidez mis ropas; su cuerpo resbala en un vaivén indómito sobre mi cuerpo desnudo, que ya siente la humedad de su sexo inundar el tejido blanco que lo cubre; con ahínco, acaricio sus muslos, sus pechos y deposito mis besos por su cuerpo, mientras él dirige una sofocada sinfonía de gemidos y suspiros, equilibrando el cuerpo entre retorcerse, rígida de placer, y bajar la guardia, relajando los músculos. Ella toma mi mano y la guía hacia dentro de su ropa interior, solícita y descontrolada, como si fuera un tren descarrilado que se dirige a una construcción maciza; ya no consigue vincular sus labios a los míos, y de su boca solo escapa un silbido ruidoso y entreverado de embriaguez.
Finalmente, ella retira la última pieza de ropa y encaja el cuerpo en el mío; sus movimientos ora son bruscos, sincopados por una violencia ansiosa, y ora se desaceleran, volviéndose categóricos, centinelas de los próximos embates. Cambiamos de posición algunas veces y, al fin, ella ve sus fuerzas agotarse, deja escapar el último y más largo gemido, y se convierte en una muñeca, inmóvil. Yo la acuesto y me quedo encima de ella, y en pocos minutos siento verter de mi cuerpo al de ella toda mi bestialidad, en chorros caudalosos, ritmados y calientes de placer. Estamos ambos entregados al cansancio, y permanecemos abrazados por algunos minutos, sin decir nada.
Miro a través de sus ojos azules como un relojero miraría el mecanismo que le es tan querido; detrás de ese pequeño caleidoscopio aberrante de colores, brillo y juventud, ¿qué futuro se aprisiona, qué deseos tictaquean? Sé, sin embargo, que necesito desvincularme de la pregunta, enfocar mi interés solo en el acto, y no en el pensamiento, o dejaré que la parte dócil de la humanidad anestesie la bestialidad que cohabita con ella. Y todo habría sido infructuoso hasta entonces.
Pues si miro a través de sus ojos y por casualidad incurro en el error de preguntar qué siente, y ella derrama sus reminiscencias como quien ofrece frutas frescas en una bandeja, seré traicionado por la curiosidad y por la empatía, y todo se invertirá. Más preguntas se forjarían, antitéticas y ansiosas por conciliación: ¿podré amarla? ¿Esto resultará en que, un día, la odiaré? ¿La rutina hermética nos desorganizará al punto de ser objeto el uno para el otro? Cuando me acueste a su lado de noche, ¿pensaré en la vida perdida, pensaré en las otras mujeres, en la propia soledad, y en los hijos que podría haber tenido en lugar de los míos? He aquí por qué es tan importante no saber: si no creo lazos, no tendré que romperlos. Y así conservo esta rara minuta de libertad para mí, y para mí solamente.
Sus párpados se cierran. Ella coloca el rostro contra mi tórax y bosteza. "¿Me despiertas dentro de un rato?", pregunta ella, en un amago de desperezarse, para enseguida completar: "Necesito descansar unos minutos, antes de irme."
Asiento con la cabeza. Espero que se duerma. Cansada y embriagada como está, ni siquiera se despierta cuando la coloco en decúbito supino y la cubro con la sábana. Me levanto y voy hasta la cocina. Allí, cojo un cuchillo, su mango de madera sostiene la inevitabilidad y la locura que están resonando en su hoja cromada. Hay un qué de poesía en ese brillo indefenso y amenazador.
Vuelvo al dormitorio. Bajo la fina sábana blanca, el relieve de sus pechos y su respirar se anuncian, en perfecto y virtuoso desconocimiento de los minutos siguientes. Posiciono la hoja perpendicularmente, en la parte más alta del abdomen; vi en la televisión que un corte profundo en ese lugar desgarraría la aorta y causaría muerte casi inmediata.
Sin vacilar, hundo la hoja en la carne de ella, la retiro y, rápidamente, una mancha roja como el vino impregna el blanco del tejido, en una expansión vigorosa e incontrolable. Tapo su boca con mi otra mano, en cuenco, pero ella ni siquiera consigue articular un grito; siento el espasmo que atraviesa sus músculos, la resistencia a abandonar la vida sin aviso previo, y sus ojos abismados e ignorantes teniendo pocos segundos para entender demasiadas cosas. El brillo de los ojos se transforma en una opacidad fija, no menos bella, que se mezcla con la inercia a la que el cuerpo se entrega. Solo unos pocos minutos más, y todo ha acabado.
Observo el cuerpo estático y la impresión viscosa de su fugacidad que se grabó en la sábana; cojo las tres calas y las reposo sobre el lugar de la herida; sus pétalos se manchan de esa tinta escarlata en la cara inferior, y conservan la blancura intacta en la otra. Un maullido se hace percibir en la sala.
Me siento en el sofá viejo, con Franz a mi lado. Él continúa lamiéndose, indiferente a todo. Mira desinteresado el arabesco sanguinolento en mis manos, y las manchas rojas en mi camisa, tal vez hasta con cierto fastidio. Su mirada parece contener más aburrimiento que reproche, como si inquiriera: "Idiota, ¿quién va a llenar mi cuenco de ahora en adelante?". Pienso en responderle: "Tú sabes arreglártelas. Siempre lo supiste." Pero nada sale de mi boca.
Siento una extraña sensación de ligereza. Cierro los ojos y estoy en los campos de mi infancia, rodeado de flores y perros, que bailan en una ronda confusa; una música parece venir de lejos, pero no consigo identificarla. El cielo está cargado, pero es el aire el que parece haberse estancado, solidificado, y la escena toda repentinamente se congela; todo a mi alrededor se congela, y hay solo un pequeño perímetro en el cual puedo moverme. Noto que hay un cuchillo frente a mí. Todos me miran, incitándome; lo tomo en mis manos y, sujetando firmemente su mango, lo clavo en mi estómago y después lo giro. Me siento como si hubiera retirado un tapón de un tanque que rebosaba, lleno de agua y suciedad, y todo se va, drenado hacia un desconocimiento impalpable. Parece que mi alma se escurre por el desagüe de mi estómago, liberándome hacia el infinito.
Abro nuevamente los ojos. Observo el reloj de pulsera en mi mano izquierda; lo limpio con la manga de la camisa, para quitar la sangre que embadurna el visor. Son pasadas las cinco de la madrugada. Franz se levanta y se despereza, la columna toda arqueada, la boca entreabierta, soltando un chillido extraño. "Debe ser el chillido de la muerte", pienso yo, con la mirada de súplica y satisfacción. Miro a los lados imaginando a la vieja señora en su túnica negra, apuntando la guadaña hacia mí. Contemplo, entonces, la puerta entreabierta del dormitorio y percibo que olvidé por un momento la existencia de la chica. "Tal vez la muerte esté allí, todavía, como un buitre." Yo podría retirar a la chica de allí, intentar darle fin a su cuerpo e inocentarme, pero ese sería un ejercicio inútil. Tal vez lo que buscaba desde el principio fuera no solo el crimen, sino también el castigo. O tal vez ni siquiera hubiera considerado que existía algo más allá del crimen en sí.
Una ambulancia rasga la noche con sus gemidos insomnes y ruines; ese ruido hace que mariposas exploten en mi estómago, y me llena de náuseas. Sueño con el cuchillo en mi vientre, el desagüe abierto de mi podredumbre. Calculo cuánto tiempo tardarían en notar la ausencia de la chica, recoger los testimonios y llegar hasta mí; o hasta que un vecino denuncie el mal olor de su cuerpo putrefacto asomándose por la ventana. ¿Cómo sería si encontraran mi cuerpo exangüe en medio de la sala? ¿Franz todavía estaría aquí, cómplice inequívoco de esta locura?
Hay mucho tiempo todavía. Arrojo el cuerpo contra el respaldo del sofá y espero alguna señal de sueño o desesperación denunciarse en mi semblante. La ambulancia desapareció a lo lejos como si yo hubiera asfixiado sus sirenas con las manos de brea de la noche.
Oigo los pasos de Franz tamborileando en mi dirección. Mi cuerpo está tan ligero. Cierro mis ojos: parece que el mundo se disolvió como un pedazo de pan abandonado en una copa de agua, o un barco de papel tragado por el flujo de la lluvia que se acumula al borde de la alcantarilla. Mi cuerpo ya no parece mi cuerpo, y mis pensamientos ya no parecen mis pensamientos. ¿Estará el mundo leudando? ¿O estaré yo, acaso, muriendo?
¿Dónde está Franz? Ya no siento su presencia en la sala, pero estoy seguro de que no se movió ni un centímetro desde que cerré los ojos; ¿su cuerpo de azabache se habrá evaporado? Intento abrir los ojos, pero no consigo: estoy preso; alguna transformación horrible sucede — tal vez haya sido engullido por una abstracción, por un evento raro, y esté debatiéndome dentro de un arrepentimiento no anunciado, de una vida desperdiciada. Pero cómo, ¿si me siento tan tranquilo? ¿Habrá arrepentimiento ya conformado? ¿O esto es otra cosa, tal vez? Tal vez sea Dios castigándome por haber escupido categóricamente en sus preceptos distorsionados, en las reglas degradadas conducidas y extraídas por los hombres. Un largo espasmo parece comprimir mi cuerpo, aplastar mis huesos, raspar mi carne como millones de dientes afilados — todos los olores del mundo, todos los sabores, los sonidos, convergen contra mí y siento una desesperación apremiante y densa desintegrarme.
Y entonces todo se calla de una vez, y un alivio agudo asoma mi cuerpo y me aúna en algo nuevo.
Abro mis ojos. En el sofá, el hombre que yo era está con la cabeza colgando hacia un lado. ¿Estará muerto? Me aproximo al punto de ver que su tórax todavía se balancea, como un lago bajo la batuta de la brisa, y me tranquilizo. Franz está bien. Miro mis patas peludas, y después nuevamente al hombre; me admiro de lo extraño que me resulta el cuerpo que hasta segundos atrás yo todavía habitaba. Un completo desconocido.
Basta solo un movimiento rápido, innato, para que mis patas se impulsen de la alfombra y encuentren el alféizar de la ventana bajo ellas; un soplo fresco y prometedor de noche se pulveriza entre mis pelos, esparciendo bajo mi carcasa la noción de mi propia metamorfosis.
Con mi brillo azabache y movimientos ágiles, gano el tejado vecino, rasgando con presteza el cenit de la noche.