Enfim Encontrei Meu Amor — Librenza Garcia

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Enfim Encontrei Meu Amor

Encontrei-a: o grande amor da minha vida.

Com ela posso discutir sobre Gyula Krúdy, Karinthy, esperar uma nova tradução do livro novo de Kundera. Comentar como é monstruoso o 1Q84 de Haruki Murakami.

Posso falar-lhe calmamente sobre Puskás na Copa do Mundo; que suas pernas moviam-se como as asas de um querubim, o major galopante, o rei dos magiares. Posso discorrer sobre como as ruas de Lisboa são o melhor lugar do mundo para se caminhar e como o carnaval é simplesmente abominável, essa gente toda lasciva comendo a carne um do outro com os olhos, abutres bêbados, e encher a boca para falar de vulgaridade com os termos mais vulgares.

Também posso mentir-lhe que conheci Madri e que amei Barcelona, quando na verdade jamais pus meus pés na Espanha. Ela se mostra sequiosa por acreditar e confiar em mim, e mesmo que eu dissesse que sou um astronauta e que vivo em um asteroide, ainda é possível que ela concordasse e batesse palmas para me agradar, pedisse-me o endereço e até mesmo me enviasse correspondência, pois tem muito apreço por mim; se o carteiro devolvesse o telegrama, ela certamente pensaria que houve algum engano, ou que me mudei de residência recentemente.

Ela me escuta como ninguém. Às vezes aquiesce, me responde, outras vezes parece perder-se nas minhas palavras, e um pouco atordoada talvez pense que o conteúdo não faça muito sentido, mas mesmo assim preenche-se do ato de me ouvir, como se isso já fosse mais do que o suficiente, concentra-se em apreender meus movimentos empolgados que também contam sua história, que complementam o quebra-cabeça; somos duas engrenagens acopladas, razão um do outro, minha alma torque da sua, nossos dentes retos movendo-nos num círculo infinito, o Eterno Retorno aplicado à devoção fraterna. Poderíamos, justo hoje, fugir disto tudo e viver no local mais remoto e inóspito do planeta, pois tudo que precisamos é pertencer um ao outro.

Ah, sim, querida, meus pais não cansam de dizer-me que preciso encontrar alguém melhor; que não és boa o suficiente. Que estou apenas perdendo meu tempo e "tapeando-me", pois tu és meu local de fuga dessa gente toda; gente imunda, que chafurda nos pratos, cantarola com voz embargada canções estúpidas e veste-se com apuro ousando acreditar que são mais do que espantalhos vagabundos ou falsos ídolos pretensiosos; também fingem ser felizes com destreza, com ânimo, chegam a acreditar na ideia com afinco doloroso, vendem-na e também a compram, achando que fizeram uma barganha, quando na verdade passaram para trás a si próprios. Nós, não; nós sabemos que não existe a felicidade, apenas o tempo, e que o tempo é uma sequência de polaroides enganadoras através das quais somente nós podemos enxergar.

À noite costumo acordar para observá-la, removido de qualquer preocupação, subitamente trespassado por uma melancolia gratuita, que me absorve e me enleva. No dédalo de suas expressões eu então vago meio insone, tateando futuros informes, alguma alegria diluída em cada comissura e no brilho céreo da pele atingida pela meia-luz; se Deus soprou vida em todos nós, pode ter exagerado em demasia em seu turno, pois ela está aí aos borbotões, como um navio cujos porões e convés e cabines estão abarrotados de tesouros ao ponto de eles o arrastarem para a destruição.

Quando as pessoas acham desinteressante que eu me interesse por ratos, palhaços, por um país que nunca tinham ouvido falar anteriormente; quando escutam com enfado a minha descrição das constelações (agora há treze delas, mal sabem), ou a filogenia de determinada uva, ou então de um sonho que tive sobre as pessoas todas se tornando manequins; quando, nestes momentos, todos perdem o interesse e viram a cara, delicados o suficiente para fazer do silêncio uma mensagem mais clara e educada do que palavras ríspidas, ela, entretanto, escuta-me como se fosse uma criança e eu fosse um avô a contar-lhe uma história para dormir. Vai pegar no sono, é claro, mas manterá o interesse até que a última palavra inteligível escorra de meus lábios, mistura de fel e doce, ardor e indiferença, ambivalente até o último suspiro consciente.

Agora, parando para pensar, parece-me necessário glorificar os deliciosos meandros do acaso: há anos que nos esbarrávamos por aí, que nos conhecíamos de vista e, subitamente, numa troca de olhares, havíamos nos redescoberto. E com que vertigem existencial nos atordoávamos nestes instantes, pois toda vez que parávamos para olhar um nas profundezas do outro, o infinito nos consumia e sentíamos tontura, e os músculos se entregavam, abatidos, uma verdadeira Troia derrotada, e os olhos brilhavam como se houvessem visto o Paraíso e o Pecado Original fosse mera história vulgar, e o Pison e o Gihon fôssemos nós, e enfim delimitávamos: aqui é o Éden.

Deste momento em diante, passei a vislumbrá-la com mais frequência, segui-la com os olhos, espreitar-lhe até, sem, no entanto, acuar a presa; procurei alguma forma de encontrá-la a todo o tempo, de nos esbarrarmos por aí e trocarmos olhares satisfeitos, um para o outro, e um para o outro apenas. Então, a vida se acelerou como ocorre nos filmes, picotou-se o caminho entre dois pontos infinitamente afastados, os momentos mais banais foram suprimidos pela eterna repetição deste sonho, um sonho cíclico que consumia cada vez mais as horas, os minutos, os segundos, os metros quadrados e as polegadas, e também os centavos e os milhares, e tudo o mais que pudesse ser medido e que passou a não fazer mais sentido. Acelerou-se até o ponto em que tudo se interrompeu, e então não poderíamos mais voltar atrás — não, já nada poderia ser mudado.

Desde então jamais ocorreu de conseguirmos nos separar; vamos juntos à sala, ao banheiro, ao quarto, olhando um para o outro; não há nada de doentio nisso, embora as pessoas possam comentar que "não é saudável", mas tudo isso porque elas não possuem isto que possuímos. Elas estão ancoradas no mundo real, e o nosso mundo é um estrato outro, único, onde as leis mundanas foram subitamente abolidas e a luz e a ilusão já não são antagônicas, mas até redundantes, mescladas. Se paramos em frente a uma vitrina, é mais do que esperado que não possamos olhar as bolsas, as camisas ou os artigos eletrônicos, mas apenas um ao outro, pois nada do que está exposto pode superar a existência que nos enlaça. Pertencemo-nos como ninguém antes no mundo pertenceu a ninguém. Nem ditadores ou imperadores conseguiram tal domínio sobre seus territórios e súditos, tal é o fascínio que causamos um ao outro.

A fronteira entre amor e obsessão é uma linha tênue e mal definida, ouvi certa vez de um conhecido; jamais havia pensado a respeito, mas me parece que sim, é verdade. Parece-se muito com um dia de neblina; em um instante divisamos todas as formas do mundo, mesmo que haja aquela poeira brancacenta suspensa no horizonte, e alguns passos depois, a névoa destroça tudo, desfaz arestas e cores, e andamos tropeçando paralisados; só podemos ver o que está intimamente próximo de nós, e eu só posso ver a ela, e mais nada. Como um equilibrista, tento manter-me na linha mais próxima possível do amor, mas é claro, às vezes o corpo pende em um dos sentidos; então não posso deixar de imaginar como ela se parece neste exato instante, de que modo sua fisionomia se desdobra, se está feliz, ou aborrecida, ou empolgada. Perco-me imaginando-a e vivo meu dia pela metade, de modo atropelado, como se minha própria vida na verdade me impedisse de fazer algo muito importante: passar o máximo do tempo possível a admirando. Bem, eu disse que a linha entre amor e obsessão é algo tênue, e talvez nem exista uma diferenciação, as duas sejam um espectro da mesma doença que acomete o coração, a alma, e os pensamentos, essa terrível chaga sistêmica à qual conferimos infinitos nomes e desfechos, e que corrói a propriedade intrínseca de indivíduo até não sermos mais nada em particular.

Por exemplo: em um restaurante, observamo-nos, fito seus olhos cinzentos e curiosos refletidos na concavidade vazia de um copo de vinho recém-entornado, de nossas mentes que se esvaziaram, e de um silêncio que parece nos envolver como erva daninha, exceto que, ao contrário dos outros casais, nosso silêncio não é perigoso ou danoso e nosso sorriso irrompe pontuando esses momentos. Sei que ela me entenderá mesmo que eu não faça uso de palavras. E sei que os outros existem, mas que também não existem. Como poderiam existir perto de tua existência? São coadjuvantes, figurantes, são meramente curiosos que vieram acenar com sua admiração ao nosso encontro, ao espetáculo de nossas vidas, talvez tenham mesmo pagado ingresso para terem certeza de que jamais serão tão felizes quanto somos. Dariam tudo para estarem sentados em seu lugar, mas não podem, pois, para suas infelicidades, não são ela.

Não sei se ainda tenho muito a adicionar. Todo o resto já foi dito, toda a ladainha também já está sendo escrita há séculos, repetida, remexida, e nunca nos saciamos com definições. Pois eu estou saciado — o clichê são os outros. Que mais resta dizer, então?

Pois dito tudo isto, nada mais pode ser dito. Onde quer que eu esteja, esses sentimentos acorrem ao meu encontro, inflamam-me o coração e me enchem de uma felicidade plena, que não sei definir se é sadia ou mórbida, se é natural ou forjada, mas que, para mim, não interessa de todo sua origem.

Sim, todo o resto pouco importa. Pois a encontrei, o grande amor da minha vida. Onde quer que eu vá, topo com ela, não tardo a esquadrinhá-la, faço planos e teço sonhos a seu lado; e ela sempre corresponde ao que espero e muitas vezes até ultrapassa minhas expectativas. E assim vamos vivendo. Sim, encontrei-a, inequivocamente: aqui está ela — minha imagem, refletida no espelho.