← Voltar
Encontrei-a: o grande amor da minha vida.
Com ela posso discutir sobre Gyula Krúdy, Karinthy, esperar uma nova tradução do livro novo de Kundera. Comentar como é monstruoso o 1Q84 de Haruki Murakami.
Posso falar-lhe calmamente sobre Puskás na Copa do Mundo; que suas pernas moviam-se como as asas de um querubim, o major galopante, o rei dos magiares. Posso discorrer sobre como as ruas de Lisboa são o melhor lugar do mundo para se caminhar e como o carnaval é simplesmente abominável, essa gente toda lasciva comendo a carne um do outro com os olhos, abutres bêbados, e encher a boca para falar de vulgaridade com os termos mais vulgares.
Também posso mentir-lhe que conheci Madri e que amei Barcelona, quando na verdade jamais pus meus pés na Espanha. Ela se mostra sequiosa por acreditar e confiar em mim, e mesmo que eu dissesse que sou um astronauta e que vivo em um asteroide, ainda é possível que ela concordasse e batesse palmas para me agradar, pedisse-me o endereço e até mesmo me enviasse correspondência, pois tem muito apreço por mim; se o carteiro devolvesse o telegrama, ela certamente pensaria que houve algum engano, ou que me mudei de residência recentemente.
Ela me escuta como ninguém. Às vezes aquiesce, me responde, outras vezes parece perder-se nas minhas palavras, e um pouco atordoada talvez pense que o conteúdo não faça muito sentido, mas mesmo assim preenche-se do ato de me ouvir, como se isso já fosse mais do que o suficiente, concentra-se em apreender meus movimentos empolgados que também contam sua história, que complementam o quebra-cabeça; somos duas engrenagens acopladas, razão um do outro, minha alma torque da sua, nossos dentes retos movendo-nos num círculo infinito, o Eterno Retorno aplicado à devoção fraterna. Poderíamos, justo hoje, fugir disto tudo e viver no local mais remoto e inóspito do planeta, pois tudo que precisamos é pertencer um ao outro.
Ah, sim, querida, meus pais não cansam de dizer-me que preciso encontrar alguém melhor; que não és boa o suficiente. Que estou apenas perdendo meu tempo e "tapeando-me", pois tu és meu local de fuga dessa gente toda; gente imunda, que chafurda nos pratos, cantarola com voz embargada canções estúpidas e veste-se com apuro ousando acreditar que são mais do que espantalhos vagabundos ou falsos ídolos pretensiosos; também fingem ser felizes com destreza, com ânimo, chegam a acreditar na ideia com afinco doloroso, vendem-na e também a compram, achando que fizeram uma barganha, quando na verdade passaram para trás a si próprios. Nós, não; nós sabemos que não existe a felicidade, apenas o tempo, e que o tempo é uma sequência de polaroides enganadoras através das quais somente nós podemos enxergar.
À noite costumo acordar para observá-la, removido de qualquer preocupação, subitamente trespassado por uma melancolia gratuita, que me absorve e me enleva. No dédalo de suas expressões eu então vago meio insone, tateando futuros informes, alguma alegria diluída em cada comissura e no brilho céreo da pele atingida pela meia-luz; se Deus soprou vida em todos nós, pode ter exagerado em demasia em seu turno, pois ela está aí aos borbotões, como um navio cujos porões e convés e cabines estão abarrotados de tesouros ao ponto de eles o arrastarem para a destruição.
Quando as pessoas acham desinteressante que eu me interesse por ratos, palhaços, por um país que nunca tinham ouvido falar anteriormente; quando escutam com enfado a minha descrição das constelações (agora há treze delas, mal sabem), ou a filogenia de determinada uva, ou então de um sonho que tive sobre as pessoas todas se tornando manequins; quando, nestes momentos, todos perdem o interesse e viram a cara, delicados o suficiente para fazer do silêncio uma mensagem mais clara e educada do que palavras ríspidas, ela, entretanto, escuta-me como se fosse uma criança e eu fosse um avô a contar-lhe uma história para dormir. Vai pegar no sono, é claro, mas manterá o interesse até que a última palavra inteligível escorra de meus lábios, mistura de fel e doce, ardor e indiferença, ambivalente até o último suspiro consciente.
Agora, parando para pensar, parece-me necessário glorificar os deliciosos meandros do acaso: há anos que nos esbarrávamos por aí, que nos conhecíamos de vista e, subitamente, numa troca de olhares, havíamos nos redescoberto. E com que vertigem existencial nos atordoávamos nestes instantes, pois toda vez que parávamos para olhar um nas profundezas do outro, o infinito nos consumia e sentíamos tontura, e os músculos se entregavam, abatidos, uma verdadeira Troia derrotada, e os olhos brilhavam como se houvessem visto o Paraíso e o Pecado Original fosse mera história vulgar, e o Pison e o Gihon fôssemos nós, e enfim delimitávamos: aqui é o Éden.
Deste momento em diante, passei a vislumbrá-la com mais frequência, segui-la com os olhos, espreitar-lhe até, sem, no entanto, acuar a presa; procurei alguma forma de encontrá-la a todo o tempo, de nos esbarrarmos por aí e trocarmos olhares satisfeitos, um para o outro, e um para o outro apenas. Então, a vida se acelerou como ocorre nos filmes, picotou-se o caminho entre dois pontos infinitamente afastados, os momentos mais banais foram suprimidos pela eterna repetição deste sonho, um sonho cíclico que consumia cada vez mais as horas, os minutos, os segundos, os metros quadrados e as polegadas, e também os centavos e os milhares, e tudo o mais que pudesse ser medido e que passou a não fazer mais sentido. Acelerou-se até o ponto em que tudo se interrompeu, e então não poderíamos mais voltar atrás — não, já nada poderia ser mudado.
Desde então jamais ocorreu de conseguirmos nos separar; vamos juntos à sala, ao banheiro, ao quarto, olhando um para o outro; não há nada de doentio nisso, embora as pessoas possam comentar que "não é saudável", mas tudo isso porque elas não possuem isto que possuímos. Elas estão ancoradas no mundo real, e o nosso mundo é um estrato outro, único, onde as leis mundanas foram subitamente abolidas e a luz e a ilusão já não são antagônicas, mas até redundantes, mescladas. Se paramos em frente a uma vitrina, é mais do que esperado que não possamos olhar as bolsas, as camisas ou os artigos eletrônicos, mas apenas um ao outro, pois nada do que está exposto pode superar a existência que nos enlaça. Pertencemo-nos como ninguém antes no mundo pertenceu a ninguém. Nem ditadores ou imperadores conseguiram tal domínio sobre seus territórios e súditos, tal é o fascínio que causamos um ao outro.
A fronteira entre amor e obsessão é uma linha tênue e mal definida, ouvi certa vez de um conhecido; jamais havia pensado a respeito, mas me parece que sim, é verdade. Parece-se muito com um dia de neblina; em um instante divisamos todas as formas do mundo, mesmo que haja aquela poeira brancacenta suspensa no horizonte, e alguns passos depois, a névoa destroça tudo, desfaz arestas e cores, e andamos tropeçando paralisados; só podemos ver o que está intimamente próximo de nós, e eu só posso ver a ela, e mais nada. Como um equilibrista, tento manter-me na linha mais próxima possível do amor, mas é claro, às vezes o corpo pende em um dos sentidos; então não posso deixar de imaginar como ela se parece neste exato instante, de que modo sua fisionomia se desdobra, se está feliz, ou aborrecida, ou empolgada. Perco-me imaginando-a e vivo meu dia pela metade, de modo atropelado, como se minha própria vida na verdade me impedisse de fazer algo muito importante: passar o máximo do tempo possível a admirando. Bem, eu disse que a linha entre amor e obsessão é algo tênue, e talvez nem exista uma diferenciação, as duas sejam um espectro da mesma doença que acomete o coração, a alma, e os pensamentos, essa terrível chaga sistêmica à qual conferimos infinitos nomes e desfechos, e que corrói a propriedade intrínseca de indivíduo até não sermos mais nada em particular.
Por exemplo: em um restaurante, observamo-nos, fito seus olhos cinzentos e curiosos refletidos na concavidade vazia de um copo de vinho recém-entornado, de nossas mentes que se esvaziaram, e de um silêncio que parece nos envolver como erva daninha, exceto que, ao contrário dos outros casais, nosso silêncio não é perigoso ou danoso e nosso sorriso irrompe pontuando esses momentos. Sei que ela me entenderá mesmo que eu não faça uso de palavras. E sei que os outros existem, mas que também não existem. Como poderiam existir perto de tua existência? São coadjuvantes, figurantes, são meramente curiosos que vieram acenar com sua admiração ao nosso encontro, ao espetáculo de nossas vidas, talvez tenham mesmo pagado ingresso para terem certeza de que jamais serão tão felizes quanto somos. Dariam tudo para estarem sentados em seu lugar, mas não podem, pois, para suas infelicidades, não são ela.
Não sei se ainda tenho muito a adicionar. Todo o resto já foi dito, toda a ladainha também já está sendo escrita há séculos, repetida, remexida, e nunca nos saciamos com definições. Pois eu estou saciado — o clichê são os outros. Que mais resta dizer, então?
Pois dito tudo isto, nada mais pode ser dito. Onde quer que eu esteja, esses sentimentos acorrem ao meu encontro, inflamam-me o coração e me enchem de uma felicidade plena, que não sei definir se é sadia ou mórbida, se é natural ou forjada, mas que, para mim, não interessa de todo sua origem.
Sim, todo o resto pouco importa. Pois a encontrei, o grande amor da minha vida. Onde quer que eu vá, topo com ela, não tardo a esquadrinhá-la, faço planos e teço sonhos a seu lado; e ela sempre corresponde ao que espero e muitas vezes até ultrapassa minhas expectativas. E assim vamos vivendo. Sim, encontrei-a, inequivocamente: aqui está ela — minha imagem, refletida no espelho.
I found her: the great love of my life.
With her I can discuss Gyula Krúdy, Karinthy, await a new translation of Kundera's latest book. Comment on how monstrous Haruki Murakami's 1Q84 is.
I can speak to her calmly about Puskás in the World Cup; how his legs moved like the wings of a cherub, the galloping major, the king of the Magyars. I can discourse on how the streets of Lisbon are the best place in the world to walk and how carnival is simply abominable, all those lascivious people devouring each other's flesh with their eyes, drunken vultures, and fill my mouth to speak of vulgarity in the most vulgar terms.
I can also lie to her that I've been to Madrid and that I loved Barcelona, when in truth I've never set foot in Spain. She shows herself eager to believe and trust me, and even if I said I was an astronaut living on an asteroid, she might still agree and clap her hands to please me, ask me for the address and even send me correspondence, for she holds me in great esteem; if the postman returned the telegram, she would certainly think there had been some mistake, or that I had recently moved.
She listens to me like no one else. Sometimes she acquiesces, responds to me, other times she seems to lose herself in my words, and a bit dazed she perhaps thinks the content doesn't make much sense, but still she fills herself with the act of hearing me, as if that were already more than enough, concentrating on apprehending my excited movements that also tell their story, that complete the puzzle; we are two coupled gears, each other's ratio, my soul the torque of hers, our straight teeth moving us in an infinite circle, the Eternal Return applied to fraternal devotion. We could, this very day, flee from all this and live in the most remote and inhospitable place on the planet, for all we need is to belong to each other.
Ah, yes, my dear, my parents never tire of telling me I need to find someone better; that you are not good enough. That I am merely wasting my time and "fooling myself," for you are my place of escape from all these people; filthy people, who wallow in their plates, hum stupid songs with choked voices and dress with care daring to believe they are more than vagrant scarecrows or pretentious false idols; they also pretend to be happy with skill, with spirit, they come to believe the idea with painful tenacity, they sell it and also buy it, thinking they've made a bargain, when in truth they've cheated themselves. Not us; we know that happiness does not exist, only time, and that time is a sequence of deceptive polaroids through which only we can see.
At night I often wake to observe her, removed from any worry, suddenly pierced by a gratuitous melancholy that absorbs and elevates me. In the labyrinth of her expressions I then wander half-sleepless, groping for shapeless futures, some joy diluted in each corner of her lips and in the waxy glow of skin touched by half-light; if God breathed life into all of us, he may have overdone it greatly on her turn, for she overflows with it, like a ship whose holds and decks and cabins are crammed with treasures to the point of dragging it to destruction.
When people find it uninteresting that I am interested in rats, clowns, in a country they had never heard of before; when they listen with tedium to my description of the constellations (there are now thirteen of them, they hardly know), or the phylogeny of a certain grape, or a dream I had about everyone turning into mannequins; when, in these moments, everyone loses interest and turns away, delicate enough to make silence a clearer and more polite message than harsh words, she, however, listens to me as if she were a child and I were a grandfather telling her a bedtime story. She will fall asleep, of course, but she will maintain interest until the last intelligible word drips from my lips, a mixture of gall and sweetness, ardor and indifference, ambivalent until the last conscious breath.
Now, stopping to think, it seems necessary to glorify the delicious meanders of chance: for years we had been bumping into each other, we knew each other by sight and, suddenly, in an exchange of glances, we had rediscovered one another. And with what existential vertigo we dazed ourselves in those instants, for every time we stopped to look into the depths of each other, the infinite consumed us and we felt dizzy, and our muscles surrendered, dejected, a true defeated Troy, and our eyes shone as if they had seen Paradise and Original Sin were mere vulgar history, and the Pishon and the Gihon were us, and finally we delimited: here is Eden.
From that moment on, I began to glimpse her more frequently, to follow her with my eyes, even to spy on her, without, however, cornering the prey; I sought some way to find her at all times, to bump into each other and exchange satisfied glances, one for the other, and one for the other only. Then, life accelerated as it does in films, the path between two infinitely distant points was chopped up, the most banal moments were suppressed by the eternal repetition of this dream, a cyclical dream that consumed more and more the hours, the minutes, the seconds, the square meters and the inches, and also the cents and the thousands, and everything else that could be measured and that ceased to make sense. It accelerated to the point where everything stopped, and then we could no longer go back — no, nothing could be changed anymore.
Since then we have never managed to separate; we go together to the living room, the bathroom, the bedroom, looking at each other; there is nothing sick about it, although people may comment that "it's not healthy," but all this because they don't possess what we possess. They are anchored in the real world, and our world is another stratum, unique, where mundane laws were suddenly abolished and light and illusion are no longer antagonistic, but even redundant, merged. If we stop in front of a shop window, it is more than expected that we cannot look at the bags, the shirts, or the electronics, but only at each other, for nothing on display can surpass the existence that binds us. We belong to each other as no one in the world has ever belonged to anyone. Not even dictators or emperors achieved such dominion over their territories and subjects, such is the fascination we cause in each other.
The border between love and obsession is a thin and ill-defined line, I once heard from an acquaintance; I had never thought about it, but it seems to me that yes, it's true. It resembles a foggy day; in one instant we discern all the forms of the world, even if there is that whitish dust suspended on the horizon, and a few steps later, the mist destroys everything, undoes edges and colors, and we walk stumbling, paralyzed; we can only see what is intimately close to us, and I can only see her, and nothing else. Like a tightrope walker, I try to stay on the line closest to love, but of course, sometimes the body leans one way; then I cannot help but imagine what she looks like at this exact moment, how her physiognomy unfolds, whether she is happy, or annoyed, or excited. I lose myself imagining her and live my day by halves, in a rushed manner, as if my own life actually prevented me from doing something very important: spending as much time as possible admiring her. Well, I said that the line between love and obsession is something thin, and perhaps there is no differentiation at all, the two are a spectrum of the same disease that afflicts the heart, the soul, and the thoughts, this terrible systemic wound to which we confer infinite names and endings, and which corrodes the intrinsic property of the individual until we are no longer anything in particular.
For example: in a restaurant, we observe each other, I gaze at her gray and curious eyes reflected in the empty concavity of a recently overturned wine glass, of our minds that have emptied, and of a silence that seems to envelop us like weeds, except that, unlike other couples, our silence is not dangerous or harmful and our smile erupts punctuating these moments. I know she will understand me even if I make no use of words. And I know that others exist, but that they also don't exist. How could they exist near your existence? They are supporting actors, extras, they are merely curious onlookers who came to wave their admiration at our encounter, at the spectacle of our lives, perhaps they even paid admission to make sure they will never be as happy as we are. They would give anything to be seated in her place, but they cannot, for, to their misfortune, they are not her.
I don't know if I have much more to add. Everything else has already been said, all the litany has also been written for centuries, repeated, stirred up, and we never satiate ourselves with definitions. For I am satiated — the cliché is the others. What more is there to say, then?
For having said all this, nothing more can be said. Wherever I am, these feelings rush to meet me, inflame my heart and fill me with a full happiness, which I cannot define as healthy or morbid, natural or forged, but which, for me, its origin does not matter at all.
Yes, all the rest matters little. For I found her, the great love of my life. Wherever I go, I come upon her, I am quick to scrutinize her, I make plans and weave dreams by her side; and she always meets my expectations and often even exceeds them. And so we go on living. Yes, I found her, unequivocally: here she is — my image, reflected in the mirror.
La encontré: el gran amor de mi vida.
Con ella puedo discutir sobre Gyula Krúdy, Karinthy, esperar una nueva traducción del libro nuevo de Kundera. Comentar lo monstruoso que es el 1Q84 de Haruki Murakami.
Puedo hablarle calmadamente sobre Puskás en la Copa del Mundo; que sus piernas se movían como las alas de un querubín, el mayor galopante, el rey de los magiares. Puedo disertar sobre cómo las calles de Lisboa son el mejor lugar del mundo para caminar y cómo el carnaval es simplemente abominable, toda esa gente lasciva comiéndose la carne unos a otros con los ojos, buitres borrachos, y llenarme la boca para hablar de vulgaridad con los términos más vulgares.
También puedo mentirle que conocí Madrid y que amé Barcelona, cuando en verdad jamás puse mis pies en España. Ella se muestra sedienta por creer y confiar en mí, y aunque yo dijera que soy un astronauta y que vivo en un asteroide, todavía es posible que ella concordara y aplaudiera para agradarme, me pidiera la dirección e incluso me enviara correspondencia, pues me tiene mucho aprecio; si el cartero devolviera el telegrama, ella ciertamente pensaría que hubo algún error, o que me mudé de residencia recientemente.
Ella me escucha como nadie. A veces asiente, me responde, otras veces parece perderse en mis palabras, y un poco aturdida tal vez piense que el contenido no tiene mucho sentido, pero aun así se llena del acto de oírme, como si eso ya fuera más que suficiente, se concentra en aprehender mis movimientos entusiasmados que también cuentan su historia, que complementan el rompecabezas; somos dos engranajes acoplados, razón el uno del otro, mi alma par motor de la suya, nuestros dientes rectos moviéndonos en un círculo infinito, el Eterno Retorno aplicado a la devoción fraterna. Podríamos, justo hoy, huir de todo esto y vivir en el lugar más remoto e inhóspito del planeta, pues todo lo que necesitamos es pertenecer el uno al otro.
Ah, sí, querida, mis padres no se cansan de decirme que necesito encontrar a alguien mejor; que no eres lo suficientemente buena. Que solo estoy perdiendo mi tiempo y "engañándome", pues tú eres mi lugar de fuga de toda esa gente; gente inmunda, que chapotea en los platos, tararea con voz embargada canciones estúpidas y se viste con esmero osando creer que son más que espantapájaros vagabundos o falsos ídolos pretenciosos; también fingen ser felices con destreza, con ánimo, llegan a creer en la idea con ahínco doloroso, la venden y también la compran, creyendo que hicieron un negocio, cuando en verdad se engañaron a sí mismos. Nosotros, no; nosotros sabemos que no existe la felicidad, solo el tiempo, y que el tiempo es una secuencia de polaroids engañosas a través de las cuales solamente nosotros podemos ver.
Por la noche suelo despertarme para observarla, removido de cualquier preocupación, súbitamente traspasado por una melancolía gratuita, que me absorbe y me eleva. En el laberinto de sus expresiones vago entonces medio insomne, tanteando futuros informes, alguna alegría diluida en cada comisura y en el brillo céreo de la piel alcanzada por la media luz; si Dios sopló vida en todos nosotros, puede haber exagerado en demasía en su turno, pues ella está ahí a borbotones, como un navío cuyos bodegas y cubiertas y camarotes están abarrotados de tesoros al punto de arrastrarlo a la destrucción.
Cuando las personas encuentran desinteresante que yo me interese por ratas, payasos, por un país del que nunca habían oído hablar anteriormente; cuando escuchan con hastío mi descripción de las constelaciones (ahora hay trece de ellas, apenas lo saben), o la filogenia de determinada uva, o un sueño que tuve sobre todas las personas convirtiéndose en maniquíes; cuando, en estos momentos, todos pierden el interés y voltean la cara, delicados lo suficiente para hacer del silencio un mensaje más claro y educado que palabras ásperas, ella, sin embargo, me escucha como si fuera una niña y yo fuera un abuelo contándole una historia para dormir. Se quedará dormida, claro, pero mantendrá el interés hasta que la última palabra inteligible escurra de mis labios, mezcla de hiel y dulce, ardor e indiferencia, ambivalente hasta el último suspiro consciente.
Ahora, parándome a pensar, me parece necesario glorificar los deliciosos meandros del azar: hace años que nos topábamos por ahí, que nos conocíamos de vista y, súbitamente, en un intercambio de miradas, nos habíamos redescubierto. Y con qué vértigo existencial nos aturdíamos en esos instantes, pues cada vez que parábamos para mirar uno en las profundidades del otro, el infinito nos consumía y sentíamos mareo, y los músculos se entregaban, abatidos, una verdadera Troya derrotada, y los ojos brillaban como si hubieran visto el Paraíso y el Pecado Original fuera mera historia vulgar, y el Pisón y el Guijón fuéramos nosotros, y al fin delimitábamos: aquí es el Edén.
Desde ese momento en adelante, pasé a vislumbrarla con más frecuencia, seguirla con los ojos, acecharla incluso, sin, no obstante, acorralar a la presa; busqué alguna forma de encontrarla todo el tiempo, de toparnos por ahí e intercambiar miradas satisfechas, uno para el otro, y uno para el otro solamente. Entonces, la vida se aceleró como ocurre en las películas, se picoteó el camino entre dos puntos infinitamente alejados, los momentos más banales fueron suprimidos por la eterna repetición de este sueño, un sueño cíclico que consumía cada vez más las horas, los minutos, los segundos, los metros cuadrados y las pulgadas, y también los centavos y los miles, y todo lo demás que pudiera ser medido y que pasó a no tener más sentido. Se aceleró hasta el punto en que todo se interrumpió, y entonces ya no podríamos volver atrás — no, ya nada podría ser cambiado.
Desde entonces jamás conseguimos separarnos; vamos juntos a la sala, al baño, al dormitorio, mirándonos el uno al otro; no hay nada de enfermizo en esto, aunque las personas puedan comentar que "no es saludable", pero todo esto porque ellas no poseen esto que poseemos. Ellas están ancladas en el mundo real, y nuestro mundo es otro estrato, único, donde las leyes mundanas fueron súbitamente abolidas y la luz y la ilusión ya no son antagónicas, sino hasta redundantes, mezcladas. Si paramos frente a una vitrina, es más que esperado que no podamos mirar los bolsos, las camisas o los artículos electrónicos, sino solo el uno al otro, pues nada de lo que está expuesto puede superar la existencia que nos enlaza. Nos pertenecemos como nadie antes en el mundo perteneció a nadie. Ni dictadores ni emperadores consiguieron tal dominio sobre sus territorios y súbditos, tal es el fascinio que nos causamos el uno al otro.
La frontera entre amor y obsesión es una línea tenue y mal definida, oí cierta vez de un conocido; jamás había pensado al respecto, pero me parece que sí, es verdad. Se parece mucho a un día de niebla; en un instante divisamos todas las formas del mundo, aunque haya aquel polvo blanquecino suspendido en el horizonte, y algunos pasos después, la niebla destroza todo, deshace aristas y colores, y andamos tropezando paralizados; solo podemos ver lo que está íntimamente cerca de nosotros, y yo solo puedo verla a ella, y nada más. Como un equilibrista, intento mantenerme en la línea más cercana posible al amor, pero claro, a veces el cuerpo se inclina hacia un lado; entonces no puedo dejar de imaginar cómo se ve ella en este exacto instante, de qué modo su fisonomía se desdobla, si está feliz, o aburrida, o entusiasmada. Me pierdo imaginándola y vivo mi día a medias, de modo atropellado, como si mi propia vida en verdad me impidiera hacer algo muy importante: pasar el máximo del tiempo posible admirándola. Bueno, dije que la línea entre amor y obsesión es algo tenue, y tal vez ni exista una diferenciación, las dos sean un espectro de la misma enfermedad que acomete el corazón, el alma, y los pensamientos, esta terrible llaga sistémica a la cual conferimos infinitos nombres y desenlaces, y que corroe la propiedad intrínseca de individuo hasta que no seamos más nada en particular.
Por ejemplo: en un restaurante, nos observamos, fijo sus ojos grises y curiosos reflejados en la concavidad vacía de una copa de vino recién volcada, de nuestras mentes que se vaciaron, y de un silencio que parece envolvernos como hierba dañina, excepto que, a diferencia de las otras parejas, nuestro silencio no es peligroso ni dañino y nuestra sonrisa irrumpe puntuando esos momentos. Sé que ella me entenderá aunque yo no haga uso de palabras. Y sé que los otros existen, pero que también no existen. ¿Cómo podrían existir cerca de tu existencia? Son coadyuvantes, figurantes, son meramente curiosos que vinieron a saludar con su admiración nuestro encuentro, el espectáculo de nuestras vidas, tal vez incluso hayan pagado entrada para tener la certeza de que jamás serán tan felices como somos nosotros. Darían todo por estar sentados en su lugar, pero no pueden, pues, para sus infelicidades, no son ella.
No sé si aún tengo mucho que añadir. Todo el resto ya fue dicho, toda la letanía también está siendo escrita hace siglos, repetida, removida, y nunca nos saciamos con definiciones. Pues yo estoy saciado — el cliché son los otros. ¿Qué más queda por decir, entonces?
Pues dicho todo esto, nada más puede ser dicho. Dondequiera que yo esté, estos sentimientos acuden a mi encuentro, me inflaman el corazón y me llenan de una felicidad plena, que no sé definir si es sana o mórbida, si es natural o forjada, pero que, para mí, no me interesa en absoluto su origen.
Sí, todo el resto importa poco. Pues la encontré, el gran amor de mi vida. Dondequiera que vaya, me topo con ella, no tardo en escudriñarla, hago planes y tejo sueños a su lado; y ella siempre corresponde a lo que espero y muchas veces hasta supera mis expectativas. Y así vamos viviendo. Sí, la encontré, inequívocamente: aquí está ella — mi imagen, reflejada en el espejo.