O Apanhador na Festa à Fantasia — Librenza Garcia

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O Apanhador na Festa à Fantasia

Puxa, fico fulo com uma coisa dessas. Ninguém fazia a mínima ideia do que era minha fantasia. Não culpo ninguém, não era uma fantasia de algo de Hollywood ou um personagem estereotipado tipo um soldado romano, deus grego ou Indiana Jones. Tava fantasiado de Caulfield, vê bem as ideias que eu tenho. Acho que só eu tinha lido o maldito livro na festa inteira, porque as pessoas pediam meio sem graça, o que é você, e eu respondia, Caulfield, e só um cara, meio fechadão, sisudo, nem sei o que tava fazendo na festa, estalou a língua e mexeu a cabeça como se soubesse do que se tratava, mas não achou que valia a pena fazer um comentário porque ficou mais quietão ainda e foi pegar outro copo de bebida.

Tinha combinado de me encontrar ali com uma garota da minha faculdade, o nome dela era Anna, muito bonitinha e tudo, mas eu nunca tinha reparado muito nela até ela me convidar e saber que ela tava a fim de mim. Mulheres em geral não nos convidam assim tão abertamente e quando o fazem é porque realmente devem estar gamadas na gente. Não me entendam mal, eu sei que elas dão muitos sinais, mas dificilmente elas dizem "quero ir à festa com você" com todas as letras, as sacanas esperam que a gente diga, porque elas querem sempre ter a vantagem, elas esperam você mexer a sua peça no tabuleiro, te atraem praquela casa específica e — tchum — você perdeu a peça e ainda levou um xeque.

Quando eu cheguei lá levei aquele choque de estar sozinho em um lugar estranho; tinha muitos conhecidos, mas cheguei sozinho, naquela fantasia que era basicamente uma roupa normal com um chapéu de caça vermelho. Aí me bateu a sensação de que eu não deveria estar ali. Tenho uma vontade danada de não dar a mínima pras pessoas e de ir o mais longe possível delas. As pessoas são simplesmente detestáveis, sobretudo nesse tipo de festa. Mas mesmo assim eu estava ali, e precisava tirar isso tudo da minha cabeça, mais ou menos como quando a gente tá tremendo de medo do escuro e aí topa com um interruptor, liga, e tudo fica bem outra vez.

Peguei uma bebida no balcão, um monte de gente se acotovelando, essas coisas que rolam em festas. Acho que algum filho da mãe derrubou algo no meu sapato naquele empurra-empurra, fiquei sentindo cheiro de álcool não importava onde fosse. Olhei em volta pra procurar a Anna, mas não havia nem sinal dela. Havia algumas garotas usando máscara, mas nenhuma delas parecia bater com a silhueta ou a fisionomia dela. Não sei muita coisa sobre essa Anna, tirando o fato de que é muito bonitinha e se veste bem, e que namorou um cara da minha faculdade. Parece que não terminou bem pra eles, mas, convenhamos, que relacionamento é que termina bem?

Encontrei um amigo, na verdade estava mais para conhecido, que parecia estar sozinho ali também. Tava fantasiado de jogador de futebol americano. Me deu um tapa nas costas e abriu o sorriso de lagarto, cara, como eu odeio isso. Pode me cumprimentar, pode puxar papo, mas pra quê, porra, pra quê ficar dando tapinha nas costas e soquinhos no braço? O que esses caras têm na cabeça pra justificar esse tipo de gesto? Nunca consegui entender.

A gente conversou por mais ou menos uma hora. Ficava me mostrando garotas e dizendo que já tinha ficado com elas. Essa beija bem, essa nem tanto, aquela fala pelos cotovelos, é assim ou assado na cama — poxa, e eu com isso? Homens adoram fazer isso, especialmente ele, que só sabia falar de mulheres e futebol. Não tenho nada contra futebol ou mulheres, mas você falar só sobre isso, haja paciência. Você tem que ser um sujeito muito raso pra ficar só nisso. Pensei em perguntar pra ele sobre algum livro, alguma coisa assim que o deixasse com as calças na mão, mas posso apostar um braço que não daria em nada, e ele sairia dessa rindo e apontando pra bunda de alguma chapeuzinho vermelho ou Marilyn Monroe dali.

Então senti que alguém tocava no meu ombro, já tava fulo achando que era outro babaca desses que marca território, mas quando me virei, descobri que era a Anna. Acho que ela tinha acabado de chegar à festa — ao menos me disse isso, e que estava contente por ter me encontrado tão rápido. "Sabe como é, já está ficando cheio aqui."

Ela estava usando uma roupa de Branca de Neve, vestidinho curto, tecido lustroso, vermelho e azul com os detalhes brancos, aqueles que todo mundo já conhece do filme da Disney. Tinha os lábios vermelhos como uma cereja, carregava uma maçã com uma das mãos e na outra um copo plástico metade vazio, metade cheio. Isso, definitivamente, não tinha no filme. Do lado dela, uma menina vestida de, sei lá, me parece que essas coisas de dançarina de saloon, e uma outra vestida de Minnie, só que Minnie safada, tudo muito curto e muito decote e tal. Não sabia se ficava atraído ou se com pena desse tipo de coisa. Depois que a gente bebe fica só atraído, mas se inventar de não botar uma gota de álcool na boca num lugar desses, você sai pensando horrores e fica meio deprimido, acho até que já disse, as pessoas me deprimem muito com o jeito que elas são.

Mas alguma coisa em mim sempre diz pra ficar com pena. Essa gente não deve ter muito o que mostrar, quero dizer, lá dentro, personalidade e ideias e tal. Aí tem que mostrar as coxas e torrar o fígado, como se o coitado fosse se regenerar pra sempre nessa história de Prometeu. Eu tenho esse livro sobre mitologia grega, que eu ganhei de presente, e sempre me chamou a atenção essa história. De qualquer modo, uma hora os corvos ganham, essa é a verdade, porque eles têm a eternidade toda pra isso e provavelmente nada melhor pra fazer.

Fui conversando com a tal Anna, mas a gente não tinha muito a ver. Às vezes ria de alguma observação, alguém que dançava estranho, fulano que veio sozinho à festa, essas coisas que ela adorava falar e eu concordava pra não parecer chato. Mas a coisa esfriou logo. Mais ou menos nessa hora as amigas puxaram ela, acho que nem foi intencional, ela até me olhou bonitinho, dizendo que não queria ir, mas eu também não tava a fim de fazer aquele esforço todo pra que ela ficasse. Já tava cansado, pra falar a verdade.

Depois que a Anna se afastou eu pensei com calma no que ia fazer. Eu conhecia duas garotas ali, ao menos, que eu sabia que tinham mais do que coxas e poderiam levar uma conversa mais intelectual, exceto que não era muito o lugar pra isso. Uma era minha colega, loira, altíssima, o corpo mais bem delineado que eu já vi, tinha um nome meio estranho e era engraçadinha, mesmo que andasse com um monte de sacanas que não gostavam de mim e eu, afinal, era como se não gostasse de ninguém. A outra era uma menina mirrada, meio tímida, que já tinha escrito um livro de poemas, se chamava "Morangos e Bisturis", sim, estudante de medicina, tinha que ser algo assim mórbido, pensei... tinha um poema ótimo que falava dos bisturis fatiando os morangos e só mais tarde a gente percebe que o morango que gorgolejava era dos pulsos dela, e que em vez de uma bela sobremesa ela tava ali fatiando seu próprio fim. Não pude deixar de pensar nela, sentada no quarto escuro, escrevendo aquilo muito puta com a vida, talvez por causa de algum idiota, ou uma briga de família, ou algo assim, e pensando em se matar, mas em vez disso, ela matava aqueles sentimentos com caneta e papel. A poucos passos de mim, ela dançava como se não houvesse amanhã, sacolejando a cintura esguia e fazendo aquelas graças com o cabelo que só as mulheres mais lindas sabem fazer, e isso que era tímida. Perfeitamente camuflada com as outras, acho que chamam isso de mimetismo. Mas quem sabe não houvesse amanhã, mesmo? Muito mórbido, cara, mas quando eu li, eu me esbaldei. E tava ali a Josie, guria genial mesmo, vestida de Sakura, o que, pra mim, era uma fantasia sensacional e só deixava ela ainda mais incrível, podia agora mesmo dizer pra ela "seus poemas são demais, inigualáveis, e eu me casaria contigo sem titubear", mas ela riria, afinal, ela tem esse requinte estranho de acreditar não acreditando, meio desconfiada, e um resíduo de simpatia que também podia posar de arrogância pra quem não a conhecesse muito bem. Hey, Sakura (sei que seu nome é Josie, mas agora é Sakura), vamos fugir da festa, passar nas nossas casas, juntar tudo que precisarmos e pôr no carro e viajar? Pra onde, Holden? Não importa, isso nunca importa, Sakura, a gente sempre tá tão preocupado com pra onde vai que esquece onde está e não está acontecendo absolutamente nada aqui, então por que continuamos parados? Vamos fugir pra um lugar qualquer e decidir como vai ser a vida em vez dela decidir pela gente quem vamos ser nós.

Ela riria à beça, acharia a ideia bonitinha, bem romântica, mas ia me dizer o que eu já sabia, que tinha namorado (meu Deus, um babaca daqueles), que eu até conhecia (ele estava para a babaquice assim como aquela cabeça de porco no Senhor das Moscas está pra degradação). Ou seja, ela não fugiria comigo de jeito nenhum.

O pior é que no meio de todas essas ninfetas armadas de embriaguez e pouquíssima roupa, quem me chamou a atenção foi uma vestida de Morte, uma túnica que ia até o joelho, com capuz e tudo, e uma foice de plástico pra deixar tudo mais caprichado. Demorei pra enxergar o rosto dela direito, e achei que estava muito bonita, mesmo naquela fantasia mórbida. Já a conhecia, pois tínhamos feito uma aula juntos, mas mesmo sabendo que é bonita a gente ainda olha, porque certas mulheres ficam horríveis embaixo de tanta maquiagem. Ela usava pouco, ainda bem. Mas isso não me perturbou tanto, o chato é que ela também tinha namorado, a droga era essa. Era muito bonita e inteligente, e parecia meio engraçada assim, meio que sabia pegar o ritmo do interlocutor e tornar a conversa fluida, e também fazia a gente entender com um olhar quando não tava a fim de papo. Com alguns parecia nunca estar a fim de papo, mas comigo, nas poucas vezes, tinha conversado legal. A voz dela era bonita, era daquelas que dá vontade de ficar ouvindo por horas, esse tipo de mulher que nos dá vontade de casar, a gente pensa que vale a pena ficar ouvindo a mesma voz pro resto da vida por causa de garotas assim e se um dia elas pararem de falar, cara, a gente nem sabe como vai ser.

Ela viu que eu tava por ali, me reconheceu. Veio dar oi. A gente engatou um papo legal, sobre um monte de coisas. A gente falou primeiro de amenidades, acho que todo mundo começa por aí. Afinal, você não chega e começa a falar de Espinosa ou então de um experimento científico que demonstrou que essas festas são um análogo dos rituais de acasalamento dos outros animais, quem é que vai engolir uma coisa dessas logo de entrada sem pensar que tá falando com um puta psicopata?

Ela começou a falar de um livro que tava lendo. Era um livro de um tal Brodsky, sobre Veneza. Eu não tinha lido, não, mas do jeito que ela me falou, era como se nem precisasse ler pra saber como era. Era muito bom, e ela contou um pouco a história do cara e como ele adorava a cidade mesmo quando ainda não a conhecia, e sobre como tinha sido expulso do seu país. Essas coisas tristes que acontecem com todo mundo, de formas diferentes, porque as outras pessoas são muito estúpidas e isso sempre sobra pra alguém.

Na verdade era incrível achar uma garota que lesse e falasse de um livro numa festa dessas. Vai perguntar pra esses filhinhos de papai quantos livros eles já leram, por exemplo. Não pergunta nem o que eles tão lendo, porque não tão lendo nada, posso jurar que não. Perda de tempo, vão dizer. Não sei se não tão certos, eu leio bastante e tou pior que eles. Agora, vai perguntar se gostam de cinema. Podem não gostar dos filmes japoneses, leste-europeu, e essas coisas mais cultas, mas metade deles tá vestido de personagens de cinema. Tem de tudo, mesmo: super-herói, bandido, caubói, alienígena. Mas também, é só sair de casa, sentar uma hora e meia a bunda numa cadeira macia e deixar o tempo passar. Não precisa pegar a porra de um dicionário e ler (exceto as legendas), não precisa ter um Q.I. muito elevado nem interpretar nada, só ir engolindo frames e vomitando risos e gritinhos de admiração. Olha, tem filme que é genial mesmo, mas em geral eles só veem coisas prontas, batidas, só blockbusters. Cara, eu fico puto com isso. O que custa usar um pouco a cabeça, de vez em quando, só pra variar?

A Morte — tava chamando ela assim, só por brincadeira, e ela ria — virou pra mim, apontou pro meu chapéu de caça.

— Isso é de um livro, né.

— Sim — respondi, meio acanhado, não queria julgar ela por não saber de onde tinha tirado aquilo. A gente nunca quer julgar uma menina que acha bonita, exceto quando ela já nos despreza de cara, aí sim, você faz questão de julgar. Quem ela pensa que é, não gostando da gente? Mas o diabo é que aí ela fica mais atraente e você quer ainda mais ficar com ela, pra mostrar como ela tava errada a seu respeito.

— Que legal, é diferente. Qual é o nome, mesmo?

— Do quê? — tava meio confuso se ela queria o nome do livro ou do personagem, mas completei — É o Caulfield, de O Apanhador no Campo de Centeio. É um livro do Salinger. Ele morreu faz pouco.

Disse isso e pensei como era triste ser um cara, e aí escrever um livro, e aí morrer e as pessoas continuarem lendo o que você escreveu. É como ter um obituário inteiro seu publicado repetidas vezes pra repetidas pessoas irem lendo, e isso nunca terminar.

— Ah, eu lembro. Tem esse na biblioteca do meu pai, o velho fica me empurrando pra ler, mas nunca achei que fosse bom. Agora, acho que vou ler.

— Legal — falei eu, com aquele sorriso meio atrapalhado que a gente usa quando queria dizer algo interessante pra continuar o papo, mas fica meio emperrado, com vergonha de dizer besteira e melar tudo.

— Você é meio estranho — ela disse —, mas não leva a mal. É um estranho bom.

Gostei de ouvir aquilo. É bom pra caramba quando uma mulher te diz alguma coisa assim, especialmente se for atípica, tipo "você é meio estranho" e não "nossa, esse é o seu carro?". Fiquei pensando o que eu era no outro meio que ela não tinha citado, mas não falei nada. Depois de um tempo, falei:

— Ah, sabe quando você lê um livro que é em primeira pessoa e você gosta muito e meio que incorpora a personagem, sente que é ela e tudo mais? — ela mexeu a cabeça, caralho, como ficava bonita ouvindo a gente, parecia estar muito interessada mesmo — Eu acho que eu me sinto meio esse protagonista. Gostei bastante do livro, sabe, então acho que peguei o jeito dele e transformei isso num hiato da minha personalidade. Parece que é melhor ser ele por um tempo, tipo umas férias de quem eu realmente sou. Não sei se você tá me entendendo.

Ela quase morreu de rir, provavelmente me achando o maior ridículo, e eu até que não me importei. Mas daí repetiu, chegando muito perto:

— Porra, você é bem estranho, mesmo — mas falou de boa, não conseguia me importar, de verdade. Não dava pra ter certeza quando era um elogio, especialmente porque às vezes uma mulher diz uma coisa, mas quer dizer totalmente outra, e as outras mulheres em geral entendem bem, mas eu sou meio distraído pra isso e acabo nem notando.

Falei um pouco por que gostava do livro e me identificava, depois falei da minha vida, coisas desinteressantes, mas ela ouvia com firmeza, parecia até muito atraída pelo meu relato. Depois falou um pouco dela. Aí a gente se calou e ficou dançando pertinho um do outro, o perfume e o calor dela me envolvendo, tudo muito comportado demais, principalmente pra esse tipo de festa.

Aí eu pensei no Salinger e em como não queria decidir o resto da minha vida tão cedo. Depois que ele fez sucesso, se fechou pro mundo; nunca mais apareceu, não ficou dando sopa por aí pra viverem da imagem dele. Ele não era ração pra esse tipo de animal, esse tipo que adora expor os outros pra ganhar a vida, admiro muito isso no cara. Esses são os melhores escritores, os que não estão nem aí pro que pensam deles, que não ligam pra fama. Um cara que escreve pensando em fama só pode ser muito estúpido.

Que inveja eu tenho do cara, no duro. Mas acho que quanto mais genial um sujeito, menos ele quer saber dessa porcaria toda, encher a cara, passar a mão em coxas genéricas e fingir que se importa com os outros. Tem tanta gente estúpida por aí que mesmo se você for medíocre ainda consegue se achar especial. Na festa, por exemplo, eu não dava a mínima pra todo mundo e ninguém dava a mínima pra mim. E parecia que era todo mundo importante ali. Uma ova que eram todos importantes, isso sim. Bem que fez o Salinger, dando as costas pra essa gente que não saca nada de literatura, só de fofoca.

Acho o pior tipo de sujeito esses que vivem em torno de alguém que tem talento; o escritor é como um cadáver e esse pessoal todo são abutres. Devo ter lido uma metáfora parecida em algum lugar, acho que isso não pode ter saído da minha cabeça, mas de qualquer modo, é assim que me parece.

Pensei também sobre o que era ser especial, provavelmente eu também não era especial. Não sou todo intelectual e chegado em cultura e recluso assim, nunca seria um Salinger, mas a gente em geral se sente, como minha irmã diz, a última bolacha do pacote, mas de repente olha pro lado e vê que existem milhares de pacotes no balcão do mercado e cada um deles tem uma última bolacha do pacote e, afinal, que importa ser a última ou não? Odeio gente que faz esse tipo de analogia e ainda mais quem propaga isso, não faz muito sentido, se você pensar.

Aí parei de pensar de vez e abracei ela, primeiro com calma e depois com força. Que bruta vontade de chorar, que coisa! A gente abraça uma mulher e parece que o mundo fica leve e pesado ao mesmo tempo, nunca vou conseguir entender direito isso. Passei a mão nos cabelos dela, mas não conseguia olhar no rosto dela. Ela tinha um namorado, mas o que eu tinha a ver com isso?

A gente acabou dando uns amassos num canto. Foi muito bom, até achei que ia me apaixonar, fica aquela sensação meio vaga de que aquilo já aconteceu desde sempre e sempre vai acontecer, mas aí acaba e a gente vê que não era tudo isso, que foi levado pelo momento, essas coisas. Mas ela era muito legal, e também bonitinha, tipo uma boneca. Tinha salvado minha noite. Eu achei que a seguir não ia acontecer nada demais, e aí não quis perguntar do namorado, esse tipo de coisa é só pra constranger a gente. Além do mais, ela era grandinha, certamente sabia o que tava fazendo e não era eu, um pirralho metido a adulto, numa fantasia de Caulfield, que ia buzinar uma lição de moral no ouvido dela.

A gente se falou mais uns quinze minutos naquela algazarra — porra, que música ruim, caralho —, e das pessoas se empurrando e se agarrando na surdina. Era bom falar com ela, mas ela tinha que ir — ao menos ela disse que tinha, sei lá. Por mim eu chutava todas aquelas pessoas dali e ficava dançando com ela até amanhecer. Quase disse isso pra ela, mas achei que seria sacanagem dizer coisas românticas pra quem já está apaixonada por um cara.

Depois que ela foi embora eu fiquei ali mais uma meia hora. O efeito da bebida foi passando e eu voltei a me deprimir. Uma chapeuzinho vermelho chegou perto de mim e começou a dançar meio que me convidando pra ir ali e ficar com ela, mas cara, já tava tão bêbada que nem lembraria de mim no dia seguinte. Era uma coisa até meio psicanalítica, se vestir de chapeuzinho e se oferecer pra um lobo mau, tenho um amigo que certamente diria isso, pensei eu, e até imaginei ele falando, todo sério, franzindo o cenho, como se constatar aquilo fosse mudar alguma coisa. No fundo, fiquei com pena, mas não sabia o que era melhor, desprezar a oportunidade ou ir ali e fazer o que ela queria, talvez se sentisse até pior se eu não usasse ela do que se usasse. Pra minha sorte um cara chegou antes e me poupou de ter que decidir. Eu tava muito cansado, mesmo.

Encontrei por ali um amigo, mas já avisei de cara que tava indo. Ele disse que ia ficar, como se tivesse vindo na festa comigo, tava totalmente fora, o cara. Era um sujeito engraçado, meio esganiçado, parecia um espantalho. Vi que tava abraçado na ex dele, ela também tava passadinha pra chuchu. Dei tchau pros dois, mas acho que nem me ouviram.

Saindo da festa eu lembrei da Morte, e daquele tempo que a gente passou ali, como se não existisse mais ninguém na festa e no mundo. Que cara de sorte era aquele que ia dormir abraçado com ela hoje. Mesmo que ela fizesse esse tipo de coisa — e quem sabe ele não faz o mesmo. Deve ser bom ter alguém pra dormir abraçado.

Lá fora, talvez eu encontrasse alguma coisa legal pra lembrar da noite, porque o resto tinha sido meio ruim. Um menininho cantando alguma coisa, talvez. Mas às quatro da manhã, não tem crianças na rua, exceto aquelas que tão dormindo embaixo de um toldo tiritando de frio.

Caralho, pensar isso me deprimiu de verdade.

Parei um táxi e entrei. Baixei o chapéu de caça na cabeça tapando os olhos, me joguei pra trás no banco de couro e pensei na vida. Acho que no fundo a gente passa metade da vida só fazendo isso — pensando na vida. E ainda por cima não conclui nada.

É, acho que sou meio estranho mesmo.