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Puxa, fico fulo com uma coisa dessas. Ninguém fazia a mínima ideia do que era minha fantasia. Não culpo ninguém, não era uma fantasia de algo de Hollywood ou um personagem estereotipado tipo um soldado romano, deus grego ou Indiana Jones. Tava fantasiado de Caulfield, vê bem as ideias que eu tenho. Acho que só eu tinha lido o maldito livro na festa inteira, porque as pessoas pediam meio sem graça, o que é você, e eu respondia, Caulfield, e só um cara, meio fechadão, sisudo, nem sei o que tava fazendo na festa, estalou a língua e mexeu a cabeça como se soubesse do que se tratava, mas não achou que valia a pena fazer um comentário porque ficou mais quietão ainda e foi pegar outro copo de bebida.
Tinha combinado de me encontrar ali com uma garota da minha faculdade, o nome dela era Anna, muito bonitinha e tudo, mas eu nunca tinha reparado muito nela até ela me convidar e saber que ela tava a fim de mim. Mulheres em geral não nos convidam assim tão abertamente e quando o fazem é porque realmente devem estar gamadas na gente. Não me entendam mal, eu sei que elas dão muitos sinais, mas dificilmente elas dizem "quero ir à festa com você" com todas as letras, as sacanas esperam que a gente diga, porque elas querem sempre ter a vantagem, elas esperam você mexer a sua peça no tabuleiro, te atraem praquela casa específica e — tchum — você perdeu a peça e ainda levou um xeque.
Quando eu cheguei lá levei aquele choque de estar sozinho em um lugar estranho; tinha muitos conhecidos, mas cheguei sozinho, naquela fantasia que era basicamente uma roupa normal com um chapéu de caça vermelho. Aí me bateu a sensação de que eu não deveria estar ali. Tenho uma vontade danada de não dar a mínima pras pessoas e de ir o mais longe possível delas. As pessoas são simplesmente detestáveis, sobretudo nesse tipo de festa. Mas mesmo assim eu estava ali, e precisava tirar isso tudo da minha cabeça, mais ou menos como quando a gente tá tremendo de medo do escuro e aí topa com um interruptor, liga, e tudo fica bem outra vez.
Peguei uma bebida no balcão, um monte de gente se acotovelando, essas coisas que rolam em festas. Acho que algum filho da mãe derrubou algo no meu sapato naquele empurra-empurra, fiquei sentindo cheiro de álcool não importava onde fosse. Olhei em volta pra procurar a Anna, mas não havia nem sinal dela. Havia algumas garotas usando máscara, mas nenhuma delas parecia bater com a silhueta ou a fisionomia dela. Não sei muita coisa sobre essa Anna, tirando o fato de que é muito bonitinha e se veste bem, e que namorou um cara da minha faculdade. Parece que não terminou bem pra eles, mas, convenhamos, que relacionamento é que termina bem?
Encontrei um amigo, na verdade estava mais para conhecido, que parecia estar sozinho ali também. Tava fantasiado de jogador de futebol americano. Me deu um tapa nas costas e abriu o sorriso de lagarto, cara, como eu odeio isso. Pode me cumprimentar, pode puxar papo, mas pra quê, porra, pra quê ficar dando tapinha nas costas e soquinhos no braço? O que esses caras têm na cabeça pra justificar esse tipo de gesto? Nunca consegui entender.
A gente conversou por mais ou menos uma hora. Ficava me mostrando garotas e dizendo que já tinha ficado com elas. Essa beija bem, essa nem tanto, aquela fala pelos cotovelos, é assim ou assado na cama — poxa, e eu com isso? Homens adoram fazer isso, especialmente ele, que só sabia falar de mulheres e futebol. Não tenho nada contra futebol ou mulheres, mas você falar só sobre isso, haja paciência. Você tem que ser um sujeito muito raso pra ficar só nisso. Pensei em perguntar pra ele sobre algum livro, alguma coisa assim que o deixasse com as calças na mão, mas posso apostar um braço que não daria em nada, e ele sairia dessa rindo e apontando pra bunda de alguma chapeuzinho vermelho ou Marilyn Monroe dali.
Então senti que alguém tocava no meu ombro, já tava fulo achando que era outro babaca desses que marca território, mas quando me virei, descobri que era a Anna. Acho que ela tinha acabado de chegar à festa — ao menos me disse isso, e que estava contente por ter me encontrado tão rápido. "Sabe como é, já está ficando cheio aqui."
Ela estava usando uma roupa de Branca de Neve, vestidinho curto, tecido lustroso, vermelho e azul com os detalhes brancos, aqueles que todo mundo já conhece do filme da Disney. Tinha os lábios vermelhos como uma cereja, carregava uma maçã com uma das mãos e na outra um copo plástico metade vazio, metade cheio. Isso, definitivamente, não tinha no filme. Do lado dela, uma menina vestida de, sei lá, me parece que essas coisas de dançarina de saloon, e uma outra vestida de Minnie, só que Minnie safada, tudo muito curto e muito decote e tal. Não sabia se ficava atraído ou se com pena desse tipo de coisa. Depois que a gente bebe fica só atraído, mas se inventar de não botar uma gota de álcool na boca num lugar desses, você sai pensando horrores e fica meio deprimido, acho até que já disse, as pessoas me deprimem muito com o jeito que elas são.
Mas alguma coisa em mim sempre diz pra ficar com pena. Essa gente não deve ter muito o que mostrar, quero dizer, lá dentro, personalidade e ideias e tal. Aí tem que mostrar as coxas e torrar o fígado, como se o coitado fosse se regenerar pra sempre nessa história de Prometeu. Eu tenho esse livro sobre mitologia grega, que eu ganhei de presente, e sempre me chamou a atenção essa história. De qualquer modo, uma hora os corvos ganham, essa é a verdade, porque eles têm a eternidade toda pra isso e provavelmente nada melhor pra fazer.
Fui conversando com a tal Anna, mas a gente não tinha muito a ver. Às vezes ria de alguma observação, alguém que dançava estranho, fulano que veio sozinho à festa, essas coisas que ela adorava falar e eu concordava pra não parecer chato. Mas a coisa esfriou logo. Mais ou menos nessa hora as amigas puxaram ela, acho que nem foi intencional, ela até me olhou bonitinho, dizendo que não queria ir, mas eu também não tava a fim de fazer aquele esforço todo pra que ela ficasse. Já tava cansado, pra falar a verdade.
Depois que a Anna se afastou eu pensei com calma no que ia fazer. Eu conhecia duas garotas ali, ao menos, que eu sabia que tinham mais do que coxas e poderiam levar uma conversa mais intelectual, exceto que não era muito o lugar pra isso. Uma era minha colega, loira, altíssima, o corpo mais bem delineado que eu já vi, tinha um nome meio estranho e era engraçadinha, mesmo que andasse com um monte de sacanas que não gostavam de mim e eu, afinal, era como se não gostasse de ninguém. A outra era uma menina mirrada, meio tímida, que já tinha escrito um livro de poemas, se chamava "Morangos e Bisturis", sim, estudante de medicina, tinha que ser algo assim mórbido, pensei... tinha um poema ótimo que falava dos bisturis fatiando os morangos e só mais tarde a gente percebe que o morango que gorgolejava era dos pulsos dela, e que em vez de uma bela sobremesa ela tava ali fatiando seu próprio fim. Não pude deixar de pensar nela, sentada no quarto escuro, escrevendo aquilo muito puta com a vida, talvez por causa de algum idiota, ou uma briga de família, ou algo assim, e pensando em se matar, mas em vez disso, ela matava aqueles sentimentos com caneta e papel. A poucos passos de mim, ela dançava como se não houvesse amanhã, sacolejando a cintura esguia e fazendo aquelas graças com o cabelo que só as mulheres mais lindas sabem fazer, e isso que era tímida. Perfeitamente camuflada com as outras, acho que chamam isso de mimetismo. Mas quem sabe não houvesse amanhã, mesmo? Muito mórbido, cara, mas quando eu li, eu me esbaldei. E tava ali a Josie, guria genial mesmo, vestida de Sakura, o que, pra mim, era uma fantasia sensacional e só deixava ela ainda mais incrível, podia agora mesmo dizer pra ela "seus poemas são demais, inigualáveis, e eu me casaria contigo sem titubear", mas ela riria, afinal, ela tem esse requinte estranho de acreditar não acreditando, meio desconfiada, e um resíduo de simpatia que também podia posar de arrogância pra quem não a conhecesse muito bem. Hey, Sakura (sei que seu nome é Josie, mas agora é Sakura), vamos fugir da festa, passar nas nossas casas, juntar tudo que precisarmos e pôr no carro e viajar? Pra onde, Holden? Não importa, isso nunca importa, Sakura, a gente sempre tá tão preocupado com pra onde vai que esquece onde está e não está acontecendo absolutamente nada aqui, então por que continuamos parados? Vamos fugir pra um lugar qualquer e decidir como vai ser a vida em vez dela decidir pela gente quem vamos ser nós.
Ela riria à beça, acharia a ideia bonitinha, bem romântica, mas ia me dizer o que eu já sabia, que tinha namorado (meu Deus, um babaca daqueles), que eu até conhecia (ele estava para a babaquice assim como aquela cabeça de porco no Senhor das Moscas está pra degradação). Ou seja, ela não fugiria comigo de jeito nenhum.
O pior é que no meio de todas essas ninfetas armadas de embriaguez e pouquíssima roupa, quem me chamou a atenção foi uma vestida de Morte, uma túnica que ia até o joelho, com capuz e tudo, e uma foice de plástico pra deixar tudo mais caprichado. Demorei pra enxergar o rosto dela direito, e achei que estava muito bonita, mesmo naquela fantasia mórbida. Já a conhecia, pois tínhamos feito uma aula juntos, mas mesmo sabendo que é bonita a gente ainda olha, porque certas mulheres ficam horríveis embaixo de tanta maquiagem. Ela usava pouco, ainda bem. Mas isso não me perturbou tanto, o chato é que ela também tinha namorado, a droga era essa. Era muito bonita e inteligente, e parecia meio engraçada assim, meio que sabia pegar o ritmo do interlocutor e tornar a conversa fluida, e também fazia a gente entender com um olhar quando não tava a fim de papo. Com alguns parecia nunca estar a fim de papo, mas comigo, nas poucas vezes, tinha conversado legal. A voz dela era bonita, era daquelas que dá vontade de ficar ouvindo por horas, esse tipo de mulher que nos dá vontade de casar, a gente pensa que vale a pena ficar ouvindo a mesma voz pro resto da vida por causa de garotas assim e se um dia elas pararem de falar, cara, a gente nem sabe como vai ser.
Ela viu que eu tava por ali, me reconheceu. Veio dar oi. A gente engatou um papo legal, sobre um monte de coisas. A gente falou primeiro de amenidades, acho que todo mundo começa por aí. Afinal, você não chega e começa a falar de Espinosa ou então de um experimento científico que demonstrou que essas festas são um análogo dos rituais de acasalamento dos outros animais, quem é que vai engolir uma coisa dessas logo de entrada sem pensar que tá falando com um puta psicopata?
Ela começou a falar de um livro que tava lendo. Era um livro de um tal Brodsky, sobre Veneza. Eu não tinha lido, não, mas do jeito que ela me falou, era como se nem precisasse ler pra saber como era. Era muito bom, e ela contou um pouco a história do cara e como ele adorava a cidade mesmo quando ainda não a conhecia, e sobre como tinha sido expulso do seu país. Essas coisas tristes que acontecem com todo mundo, de formas diferentes, porque as outras pessoas são muito estúpidas e isso sempre sobra pra alguém.
Na verdade era incrível achar uma garota que lesse e falasse de um livro numa festa dessas. Vai perguntar pra esses filhinhos de papai quantos livros eles já leram, por exemplo. Não pergunta nem o que eles tão lendo, porque não tão lendo nada, posso jurar que não. Perda de tempo, vão dizer. Não sei se não tão certos, eu leio bastante e tou pior que eles. Agora, vai perguntar se gostam de cinema. Podem não gostar dos filmes japoneses, leste-europeu, e essas coisas mais cultas, mas metade deles tá vestido de personagens de cinema. Tem de tudo, mesmo: super-herói, bandido, caubói, alienígena. Mas também, é só sair de casa, sentar uma hora e meia a bunda numa cadeira macia e deixar o tempo passar. Não precisa pegar a porra de um dicionário e ler (exceto as legendas), não precisa ter um Q.I. muito elevado nem interpretar nada, só ir engolindo frames e vomitando risos e gritinhos de admiração. Olha, tem filme que é genial mesmo, mas em geral eles só veem coisas prontas, batidas, só blockbusters. Cara, eu fico puto com isso. O que custa usar um pouco a cabeça, de vez em quando, só pra variar?
A Morte — tava chamando ela assim, só por brincadeira, e ela ria — virou pra mim, apontou pro meu chapéu de caça.
— Isso é de um livro, né.
— Sim — respondi, meio acanhado, não queria julgar ela por não saber de onde tinha tirado aquilo. A gente nunca quer julgar uma menina que acha bonita, exceto quando ela já nos despreza de cara, aí sim, você faz questão de julgar. Quem ela pensa que é, não gostando da gente? Mas o diabo é que aí ela fica mais atraente e você quer ainda mais ficar com ela, pra mostrar como ela tava errada a seu respeito.
— Que legal, é diferente. Qual é o nome, mesmo?
— Do quê? — tava meio confuso se ela queria o nome do livro ou do personagem, mas completei — É o Caulfield, de O Apanhador no Campo de Centeio. É um livro do Salinger. Ele morreu faz pouco.
Disse isso e pensei como era triste ser um cara, e aí escrever um livro, e aí morrer e as pessoas continuarem lendo o que você escreveu. É como ter um obituário inteiro seu publicado repetidas vezes pra repetidas pessoas irem lendo, e isso nunca terminar.
— Ah, eu lembro. Tem esse na biblioteca do meu pai, o velho fica me empurrando pra ler, mas nunca achei que fosse bom. Agora, acho que vou ler.
— Legal — falei eu, com aquele sorriso meio atrapalhado que a gente usa quando queria dizer algo interessante pra continuar o papo, mas fica meio emperrado, com vergonha de dizer besteira e melar tudo.
— Você é meio estranho — ela disse —, mas não leva a mal. É um estranho bom.
Gostei de ouvir aquilo. É bom pra caramba quando uma mulher te diz alguma coisa assim, especialmente se for atípica, tipo "você é meio estranho" e não "nossa, esse é o seu carro?". Fiquei pensando o que eu era no outro meio que ela não tinha citado, mas não falei nada. Depois de um tempo, falei:
— Ah, sabe quando você lê um livro que é em primeira pessoa e você gosta muito e meio que incorpora a personagem, sente que é ela e tudo mais? — ela mexeu a cabeça, caralho, como ficava bonita ouvindo a gente, parecia estar muito interessada mesmo — Eu acho que eu me sinto meio esse protagonista. Gostei bastante do livro, sabe, então acho que peguei o jeito dele e transformei isso num hiato da minha personalidade. Parece que é melhor ser ele por um tempo, tipo umas férias de quem eu realmente sou. Não sei se você tá me entendendo.
Ela quase morreu de rir, provavelmente me achando o maior ridículo, e eu até que não me importei. Mas daí repetiu, chegando muito perto:
— Porra, você é bem estranho, mesmo — mas falou de boa, não conseguia me importar, de verdade. Não dava pra ter certeza quando era um elogio, especialmente porque às vezes uma mulher diz uma coisa, mas quer dizer totalmente outra, e as outras mulheres em geral entendem bem, mas eu sou meio distraído pra isso e acabo nem notando.
Falei um pouco por que gostava do livro e me identificava, depois falei da minha vida, coisas desinteressantes, mas ela ouvia com firmeza, parecia até muito atraída pelo meu relato. Depois falou um pouco dela. Aí a gente se calou e ficou dançando pertinho um do outro, o perfume e o calor dela me envolvendo, tudo muito comportado demais, principalmente pra esse tipo de festa.
Aí eu pensei no Salinger e em como não queria decidir o resto da minha vida tão cedo. Depois que ele fez sucesso, se fechou pro mundo; nunca mais apareceu, não ficou dando sopa por aí pra viverem da imagem dele. Ele não era ração pra esse tipo de animal, esse tipo que adora expor os outros pra ganhar a vida, admiro muito isso no cara. Esses são os melhores escritores, os que não estão nem aí pro que pensam deles, que não ligam pra fama. Um cara que escreve pensando em fama só pode ser muito estúpido.
Que inveja eu tenho do cara, no duro. Mas acho que quanto mais genial um sujeito, menos ele quer saber dessa porcaria toda, encher a cara, passar a mão em coxas genéricas e fingir que se importa com os outros. Tem tanta gente estúpida por aí que mesmo se você for medíocre ainda consegue se achar especial. Na festa, por exemplo, eu não dava a mínima pra todo mundo e ninguém dava a mínima pra mim. E parecia que era todo mundo importante ali. Uma ova que eram todos importantes, isso sim. Bem que fez o Salinger, dando as costas pra essa gente que não saca nada de literatura, só de fofoca.
Acho o pior tipo de sujeito esses que vivem em torno de alguém que tem talento; o escritor é como um cadáver e esse pessoal todo são abutres. Devo ter lido uma metáfora parecida em algum lugar, acho que isso não pode ter saído da minha cabeça, mas de qualquer modo, é assim que me parece.
Pensei também sobre o que era ser especial, provavelmente eu também não era especial. Não sou todo intelectual e chegado em cultura e recluso assim, nunca seria um Salinger, mas a gente em geral se sente, como minha irmã diz, a última bolacha do pacote, mas de repente olha pro lado e vê que existem milhares de pacotes no balcão do mercado e cada um deles tem uma última bolacha do pacote e, afinal, que importa ser a última ou não? Odeio gente que faz esse tipo de analogia e ainda mais quem propaga isso, não faz muito sentido, se você pensar.
Aí parei de pensar de vez e abracei ela, primeiro com calma e depois com força. Que bruta vontade de chorar, que coisa! A gente abraça uma mulher e parece que o mundo fica leve e pesado ao mesmo tempo, nunca vou conseguir entender direito isso. Passei a mão nos cabelos dela, mas não conseguia olhar no rosto dela. Ela tinha um namorado, mas o que eu tinha a ver com isso?
A gente acabou dando uns amassos num canto. Foi muito bom, até achei que ia me apaixonar, fica aquela sensação meio vaga de que aquilo já aconteceu desde sempre e sempre vai acontecer, mas aí acaba e a gente vê que não era tudo isso, que foi levado pelo momento, essas coisas. Mas ela era muito legal, e também bonitinha, tipo uma boneca. Tinha salvado minha noite. Eu achei que a seguir não ia acontecer nada demais, e aí não quis perguntar do namorado, esse tipo de coisa é só pra constranger a gente. Além do mais, ela era grandinha, certamente sabia o que tava fazendo e não era eu, um pirralho metido a adulto, numa fantasia de Caulfield, que ia buzinar uma lição de moral no ouvido dela.
A gente se falou mais uns quinze minutos naquela algazarra — porra, que música ruim, caralho —, e das pessoas se empurrando e se agarrando na surdina. Era bom falar com ela, mas ela tinha que ir — ao menos ela disse que tinha, sei lá. Por mim eu chutava todas aquelas pessoas dali e ficava dançando com ela até amanhecer. Quase disse isso pra ela, mas achei que seria sacanagem dizer coisas românticas pra quem já está apaixonada por um cara.
Depois que ela foi embora eu fiquei ali mais uma meia hora. O efeito da bebida foi passando e eu voltei a me deprimir. Uma chapeuzinho vermelho chegou perto de mim e começou a dançar meio que me convidando pra ir ali e ficar com ela, mas cara, já tava tão bêbada que nem lembraria de mim no dia seguinte. Era uma coisa até meio psicanalítica, se vestir de chapeuzinho e se oferecer pra um lobo mau, tenho um amigo que certamente diria isso, pensei eu, e até imaginei ele falando, todo sério, franzindo o cenho, como se constatar aquilo fosse mudar alguma coisa. No fundo, fiquei com pena, mas não sabia o que era melhor, desprezar a oportunidade ou ir ali e fazer o que ela queria, talvez se sentisse até pior se eu não usasse ela do que se usasse. Pra minha sorte um cara chegou antes e me poupou de ter que decidir. Eu tava muito cansado, mesmo.
Encontrei por ali um amigo, mas já avisei de cara que tava indo. Ele disse que ia ficar, como se tivesse vindo na festa comigo, tava totalmente fora, o cara. Era um sujeito engraçado, meio esganiçado, parecia um espantalho. Vi que tava abraçado na ex dele, ela também tava passadinha pra chuchu. Dei tchau pros dois, mas acho que nem me ouviram.
Saindo da festa eu lembrei da Morte, e daquele tempo que a gente passou ali, como se não existisse mais ninguém na festa e no mundo. Que cara de sorte era aquele que ia dormir abraçado com ela hoje. Mesmo que ela fizesse esse tipo de coisa — e quem sabe ele não faz o mesmo. Deve ser bom ter alguém pra dormir abraçado.
Lá fora, talvez eu encontrasse alguma coisa legal pra lembrar da noite, porque o resto tinha sido meio ruim. Um menininho cantando alguma coisa, talvez. Mas às quatro da manhã, não tem crianças na rua, exceto aquelas que tão dormindo embaixo de um toldo tiritando de frio.
Caralho, pensar isso me deprimiu de verdade.
Parei um táxi e entrei. Baixei o chapéu de caça na cabeça tapando os olhos, me joguei pra trás no banco de couro e pensei na vida. Acho que no fundo a gente passa metade da vida só fazendo isso — pensando na vida. E ainda por cima não conclui nada.
É, acho que sou meio estranho mesmo.
Boy, I get so damn mad about stuff like that. Nobody had the slightest idea what my costume was. I don't blame anybody, it wasn't some Hollywood thing or a stereotyped character like a Roman soldier, Greek god, or Indiana Jones. I was dressed as Caulfield, that's the kind of ideas I have. I think I was the only one who'd read the goddam book at the whole party, because people would ask, sort of embarrassed, what are you, and I'd say, Caulfield, and only one guy, kind of withdrawn, sullen, I don't even know what he was doing at the party, clicked his tongue and shook his head like he knew what I was talking about, but didn't think it was worth making a comment because he got even quieter and went to get another drink.
I'd made plans to meet a girl from my college there, her name was Anna, very pretty and all, but I'd never really noticed her until she invited me and I found out she was into me. Women don't usually invite us so openly like that and when they do it's because they must really be crazy about us. Don't get me wrong, I know they give a lot of signals, but they hardly ever say "I want to go to the party with you" straight out, the little devils wait for us to say it, because they always want to have the upper hand, they wait for you to move your piece on the board, lure you to that specific square and — bam — you lost your piece and you're in check.
When I got there I got that shock of being alone in a strange place; there were a lot of people I knew, but I arrived alone, in that costume that was basically regular clothes with a red hunting hat. Then I got the feeling that I shouldn't be there. I have this crazy urge not to give a damn about people and to get as far away from them as possible. People are simply detestable, especially at this kind of party. But still I was there, and I needed to get all that out of my head, sort of like when you're shaking with fear of the dark and then you bump into a light switch, turn it on, and everything's okay again.
I got a drink at the bar, a bunch of people elbowing each other, the kind of stuff that happens at parties. I think some sonuvabitch spilled something on my shoe in all that pushing, I kept smelling alcohol no matter where I went. I looked around for Anna, but there was no sign of her. There were some girls wearing masks, but none of them seemed to match her silhouette or features. I don't know much about this Anna, except that she's very pretty and dresses well, and that she dated some guy from my college. It seems like it didn't end well for them, but let's face it, what relationship does end well?
I found a friend, actually he was more of an acquaintance, who also seemed to be alone there. He was dressed as a football player. He slapped me on the back and flashed that lizard smile, boy, I hate that. You can say hi to me, you can make small talk, but what for, goddammit, what's the point of slapping people on the back and punching them on the arm? What goes on in these guys' heads to justify that kind of thing? I've never been able to understand it.
We talked for about an hour. He kept showing me girls and saying he'd hooked up with them. This one's a good kisser, that one not so much, that other one talks your ear off, she's like this or that in bed — I mean, what do I care? Men love doing that, especially him, who only knew how to talk about women and football. I've got nothing against football or women, but talking only about that, give me a break. You have to be a pretty shallow guy to stick to just that. I thought about asking him about some book, something that would catch him with his pants down, but I'd bet an arm it wouldn't amount to anything, and he'd come out of it laughing and pointing at some Little Red Riding Hood's ass or some Marilyn Monroe over there.
Then I felt someone tap my shoulder, I was already mad thinking it was another one of those jerks who marks his territory, but when I turned around, I found out it was Anna. I think she'd just arrived at the party — at least she told me so, and that she was glad she'd found me so quickly. "You know how it is, it's already getting crowded in here."
She was wearing a Snow White outfit, short little dress, shiny fabric, red and blue with white details, the ones everyone knows from the Disney movie. She had lips red as a cherry, carried an apple in one hand and in the other a plastic cup half empty, half full. That definitely wasn't in the movie. Next to her, a girl dressed as, I don't know, looks like one of those saloon dancer things, and another one dressed as Minnie, only slutty Minnie, everything very short and lots of cleavage and all. I didn't know whether to be attracted or to feel sorry for that kind of thing. After you drink you just feel attracted, but if you decide not to put a drop of alcohol in your mouth in a place like that, you leave thinking horrible things and get kind of depressed, I think I already said, people depress me a lot with the way they are.
But something in me always says to feel sorry. These people probably don't have much to show, I mean, inside, personality and ideas and all. So they have to show their thighs and burn out their liver, as if the poor thing would regenerate forever like in that Prometheus story. I have this book about Greek mythology, I got it as a gift, and that story always caught my attention. Anyway, at some point the vultures win, that's the truth, because they have all eternity for it and probably nothing better to do.
I kept talking to this Anna, but we didn't have much in common. Sometimes I laughed at some observation, someone dancing weird, some guy who came to the party alone, those things she loved talking about and I agreed so I wouldn't seem like a bore. But things cooled off pretty quickly. Around that time her friends pulled her away, I don't think it was even intentional, she even gave me this nice look, saying she didn't want to go, but I also didn't feel like making all that effort for her to stay. I was already tired, to tell the truth.
After Anna left I thought calmly about what I was going to do. I knew at least two girls there who I knew had more than just thighs and could carry on a more intellectual conversation, except it wasn't really the place for that. One was a classmate of mine, blonde, super tall, the best-shaped body I've ever seen, had a kind of weird name and was funny, even though she hung out with a bunch of jerks who didn't like me and I, after all, it was like I didn't like anyone. The other was a skinny girl, kind of shy, who'd already written a book of poems, it was called "Strawberries and Scalpels," yes, med student, it had to be something morbid like that, I thought... there was a great poem about scalpels slicing strawberries and only later you realize that the strawberry gurgling was from her wrists, and instead of a nice dessert she was there slicing her own end. I couldn't help thinking about her, sitting in a dark room, writing that stuff really pissed off at life, maybe because of some idiot, or a family fight, or something like that, and thinking about killing herself, but instead, she killed those feelings with pen and paper. A few steps away from me, she was dancing like there was no tomorrow, shaking her slender waist and doing those things with her hair that only the most beautiful women know how to do, and she was shy at that. Perfectly camouflaged with the others, I think they call that mimicry. But who knows, maybe there was no tomorrow, really? Very morbid, man, but when I read it, I had a ball. And there was Josie, really brilliant girl, dressed as Sakura, which, to me, was a sensational costume and only made her even more incredible, I could right now tell her "your poems are amazing, unmatched, and I'd marry you without hesitating," but she'd laugh, after all, she has this strange refinement of believing while not believing, kind of suspicious, and a residue of friendliness that could also pass for arrogance to someone who didn't know her very well. Hey, Sakura (I know your name is Josie, but now you're Sakura), let's run away from the party, stop by our houses, get everything we need and put it in the car and travel? Where to, Holden? It doesn't matter, that never matters, Sakura, we're always so worried about where we're going that we forget where we are and absolutely nothing is happening here, so why do we keep standing still? Let's run away somewhere and decide what life is going to be like instead of letting it decide for us who we're going to be.
She'd laugh her head off, think the idea was cute, very romantic, but she'd tell me what I already knew, that she had a boyfriend (my God, one of those jerks), that I even knew (he was to jerkhood what that pig's head in Lord of the Flies is to degradation). In other words, she wouldn't run away with me no way.
The worst part is that in the middle of all those nymphs armed with drunkenness and very little clothing, who caught my attention was one dressed as Death, a robe that went down to her knees, with a hood and everything, and a plastic scythe to make it all more elaborate. It took me a while to see her face properly, and I thought she was very pretty, even in that morbid costume. I already knew her, because we'd had a class together, but even knowing she's pretty you still look, because some women look awful under all that makeup. She wore little, thank God. But that didn't bother me so much, the annoying thing is that she also had a boyfriend, that was the problem. She was very pretty and intelligent, and seemed kind of funny like that, sort of knew how to pick up the rhythm of whoever she was talking to and make the conversation flow, and she also let you know with a look when she wasn't in the mood to chat. With some people she never seemed to be in the mood to chat, but with me, the few times, she'd talked nicely. Her voice was pretty, it was one of those you feel like listening to for hours, the kind of woman that makes you want to get married, you think it's worth listening to the same voice for the rest of your life because of girls like that and if one day they stop talking, boy, you don't even know how it's going to be.
She saw I was around, recognized me. Came over to say hi. We got into a nice conversation, about a bunch of things. We talked about small stuff first, I think everyone starts there. After all, you don't just walk up and start talking about Spinoza or some scientific experiment that showed these parties are an analogue of mating rituals in other animals, who's going to swallow something like that right off the bat without thinking they're talking to some psychopath?
She started talking about a book she was reading. It was a book by some guy named Brodsky, about Venice. I hadn't read it, no, but the way she told me about it, it was like I didn't even need to read it to know what it was like. It was very good, and she told me a bit about the guy's story and how he loved the city even when he still didn't know it, and about how he'd been expelled from his country. Those sad things that happen to everyone, in different ways, because other people are very stupid and someone always ends up paying for it.
Actually it was incredible to find a girl who read and talked about a book at a party like this. Go ask these rich kids how many books they've read, for example. Don't even ask what they're reading, because they're not reading anything, I can swear they're not. Waste of time, they'll say. I don't know if they're not right, I read a lot and I'm worse off than them. Now, go ask if they like movies. They might not like Japanese films, Eastern European, and those more cultured things, but half of them are dressed as movie characters. There's everything, really: superhero, villain, cowboy, alien. But then again, all you have to do is leave the house, sit your ass in a soft chair for an hour and a half and let time pass. You don't have to pick up a goddam dictionary and read (except the subtitles), you don't need a very high IQ or interpret anything, just swallow frames and vomit laughs and little screams of admiration. Look, there are movies that are really brilliant, but generally they only watch ready-made stuff, clichés, just blockbusters. Boy, I get so pissed about that. What's so hard about using your head a little, once in a while, just for a change?
Death — I was calling her that, just as a joke, and she laughed — turned to me, pointed at my hunting hat.
"That's from a book, right."
"Yes," I replied, kind of shy, I didn't want to judge her for not knowing where I'd gotten that from. You never want to judge a girl you think is pretty, except when she already despises you from the start, then yes, you make a point of judging. Who does she think she is, not liking us? But the devil of it is that then she becomes more attractive and you want even more to be with her, to show how wrong she was about you.
"That's cool, it's different. What's the name again?"
"Of what?" — I was kind of confused whether she wanted the name of the book or the character, but I added — "It's Caulfield, from The Catcher in the Rye. It's a book by Salinger. He died not long ago."
I said that and thought about how sad it was to be a guy, and then write a book, and then die and people keep reading what you wrote. It's like having your whole obituary published over and over for different people to keep reading, and it never ends.
"Oh, I remember. My dad has that one in his library, the old man keeps pushing me to read it, but I never thought it would be any good. Now, I think I'm going to read it."
"Cool," I said, with that kind of awkward smile you use when you wanted to say something interesting to keep the conversation going, but you get kind of stuck, embarrassed about saying something stupid and screwing everything up.
"You're kind of weird," she said, "but don't take it the wrong way. It's a good weird."
I liked hearing that. It's damn great when a woman tells you something like that, especially if it's atypical, like "you're kind of weird" and not "wow, is that your car?" I kept thinking about what I was in the other half she hadn't mentioned, but I didn't say anything. After a while, I said:
"Oh, you know when you read a book that's in first person and you really like it and kind of become the character, feel like you are them and everything?" — she nodded, goddammit, she looked so pretty listening, she seemed really interested — "I think I sort of feel like this protagonist. I really liked the book, you know, so I think I picked up his way and turned it into a break from my personality. It seems better to be him for a while, like a vacation from who I really am. I don't know if you're following me."
She almost died laughing, probably thinking I was the biggest dork, and I didn't even mind. But then she repeated, getting very close:
"Damn, you really are weird" — but she said it nicely, I couldn't care, really. You couldn't tell when it was a compliment, especially because sometimes a woman says one thing, but means something totally different, and other women usually understand fine, but I'm kind of oblivious to that and end up not even noticing.
I talked a bit about why I liked the book and identified with it, then I talked about my life, uninteresting stuff, but she listened intently, seemed even very drawn to my account. Then she talked a bit about herself. Then we went quiet and stood dancing close to each other, her perfume and her warmth enveloping me, everything too proper, especially for this kind of party.
Then I thought about Salinger and how I didn't want to decide the rest of my life so soon. After he was successful, he closed himself off from the world; never showed up again, didn't hang around for people to live off his image. He wasn't fodder for that kind of animal, the kind that loves exposing others to make a living, I really admire that about the guy. Those are the best writers, the ones who don't give a damn what people think of them, who don't care about fame. A guy who writes thinking about fame can only be very stupid.
I'm so jealous of the guy, I really am. But I think the more brilliant a person is, the less they want to know about all this crap, getting wasted, feeling up generic thighs and pretending to care about others. There are so many stupid people out there that even if you're mediocre you can still think you're special. At the party, for example, I didn't give a damn about everyone and nobody gave a damn about me. And it seemed like everyone was important there. Like hell they were all important, that's what. Salinger did the right thing, turning his back on these people who don't know anything about literature, just gossip.
I think the worst kind of people are those who live around someone who has talent; the writer is like a corpse and all these people are vultures. I must have read a similar metaphor somewhere, I don't think that could have come out of my head, but anyway, that's how it seems to me.
I also thought about what it was to be special, I probably wasn't special either. I'm not all intellectual and into culture and reclusive like that, I'd never be a Salinger, but we usually feel, as my sister says, like the last cookie in the package, but then you look to the side and see there are thousands of packages on the supermarket shelf and each one has a last cookie and, after all, what does it matter to be the last or not? I hate people who make that kind of analogy and even more people who spread it around, it doesn't make much sense, if you think about it.
Then I stopped thinking altogether and hugged her, first gently and then hard. What a crazy urge to cry, what the hell! You hug a woman and it seems like the world gets light and heavy at the same time, I'll never quite understand that. I ran my hand through her hair, but I couldn't look at her face. She had a boyfriend, but what did I have to do with that?
We ended up making out in a corner. It was really good, I even thought I was going to fall in love, you get that vague feeling that this has always happened and will always happen, but then it ends and you see it wasn't all that, that you got carried away by the moment, that kind of stuff. But she was really cool, and pretty too, like a doll. She'd saved my night. I figured nothing else was going to happen next, and I didn't want to ask about the boyfriend, that kind of thing is just embarrassing. Besides, she was a big girl, she certainly knew what she was doing and it wasn't me, a kid pretending to be an adult, in a Caulfield costume, who was going to lecture her.
We talked for about fifteen more minutes in all that racket — goddamn, what awful music —, and people pushing each other and making out on the sly. It was good to talk to her, but she had to go — at least she said she did, I don't know. If it were up to me I'd kick all those people out of there and keep dancing with her until dawn. I almost said that to her, but I thought it would be crappy to say romantic things to someone who's already in love with some guy.
After she left I stayed there another half hour. The effect of the drink wore off and I got depressed again. A Little Red Riding Hood came up to me and started dancing kind of inviting me to go over and hook up with her, but boy, she was already so drunk she wouldn't even remember me the next day. It was even kind of psychoanalytical, dressing up as Little Red Riding Hood and offering yourself to a big bad wolf, I have a friend who would certainly say that, I thought, and I even imagined him saying it, all serious, frowning, as if pointing that out was going to change anything. Deep down, I felt sorry, but I didn't know what was better, to pass up the opportunity or go there and do what she wanted, maybe she'd feel even worse if I didn't use her than if I did. Luckily some guy got there first and spared me having to decide. I was really tired, anyway.
I found a friend there, but I told him right away I was leaving. He said he was going to stay, as if he'd come to the party with me, he was totally out of it, the guy. He was a funny dude, kind of scrawny, looked like a scarecrow. I saw he was hugging his ex, she was also totally smashed. I said bye to both of them, but I don't think they even heard me.
Leaving the party I remembered Death, and that time we spent there, as if no one else existed at the party and in the world. What a lucky guy, whoever was going to sleep holding her tonight. Even if she did that kind of thing — and who knows, maybe he does the same. It must be nice to have someone to sleep holding.
Outside, maybe I'd find something nice to remember from the night, because the rest had been kind of bad. A little kid singing something, maybe. But at four in the morning, there are no children on the street, except the ones sleeping under an awning shivering with cold.
Goddammit, thinking about that really depressed me.
I stopped a cab and got in. I pulled the hunting hat down over my eyes, threw myself back on the leather seat and thought about life. I think deep down we spend half our lives just doing that — thinking about life. And we don't even reach any conclusions.
Yeah, I guess I'm kind of weird, all right.
¡Jo! Me pongo hecho una fiera con esas cosas. Nadie tenía ni la más remota idea de qué era mi disfraz. No culpo a nadie, no era un disfraz de algo de Hollywood o un personaje estereotipado tipo un soldado romano, dios griego o Indiana Jones. Iba disfrazado de Caulfield, vean las ideas que tengo. Creo que era el único que había leído el maldito libro en toda la fiesta, porque la gente preguntaba medio incómoda, qué eres tú, y yo respondía, Caulfield, y solo un tío, medio cerrado, taciturno, ni sé qué hacía en la fiesta, chasqueó la lengua y movió la cabeza como si supiera de qué se trataba, pero no creyó que valiera la pena hacer un comentario porque se quedó más callado todavía y fue a buscar otra copa.
Había quedado de encontrarme allí con una chica de mi facultad, se llamaba Anna, muy mona y todo, pero yo nunca me había fijado mucho en ella hasta que me invitó y supe que le gustaba. Las mujeres en general no nos invitan así tan abiertamente y cuando lo hacen es porque realmente deben estar locas por nosotros. No me malinterpreten, ya sé que dan muchas señales, pero difícilmente dicen "quiero ir a la fiesta contigo" con todas las letras, las muy zorras esperan que lo digamos nosotros, porque siempre quieren tener la ventaja, esperan que muevas tu pieza en el tablero, te atraen a esa casilla específica y — zas — perdiste la pieza y encima te dieron jaque.
Cuando llegué me dio ese shock de estar solo en un lugar extraño; había muchos conocidos, pero llegué solo, con aquel disfraz que era básicamente ropa normal con una gorra de caza roja. Entonces me entró la sensación de que no debería estar allí. Tengo unas ganas locas de no importarme un pimiento la gente e irme lo más lejos posible de ellos. La gente es sencillamente detestable, sobre todo en este tipo de fiestas. Pero aun así estaba allí, y necesitaba quitarme todo eso de la cabeza, más o menos como cuando estás temblando de miedo a la oscuridad y entonces topas con un interruptor, lo enciendes, y todo queda bien otra vez.
Cogí una bebida en la barra, un montón de gente dándose codazos, esas cosas que pasan en las fiestas. Creo que algún hijoputa me derramó algo en el zapato en todo ese empujón, me quedé oliendo a alcohol fuera donde fuera. Miré alrededor buscando a Anna, pero no había ni rastro de ella. Había algunas chicas con máscara, pero ninguna parecía coincidir con su silueta o su fisonomía. No sé mucho sobre esta Anna, salvo que es muy mona y se viste bien, y que salió con un tío de mi facultad. Parece que no terminó bien para ellos, pero, convengamos, ¿qué relación termina bien?
Me encontré con un amigo, en realidad era más un conocido, que parecía estar solo allí también. Iba disfrazado de jugador de fútbol americano. Me dio una palmada en la espalda y abrió esa sonrisa de lagarto, tío, cómo odio eso. Puedes saludarme, puedes darme conversación, pero ¿para qué, joder, para qué andar dando palmaditas en la espalda y puñetazos en el brazo? ¿Qué tienen estos tíos en la cabeza para justificar ese tipo de gesto? Nunca he conseguido entenderlo.
Hablamos durante más o menos una hora. Se la pasaba enseñándome chicas y diciendo que se había enrollado con ellas. Esta besa bien, esta no tanto, aquella habla por los codos, es así o asado en la cama — ¡jo! ¿Y a mí qué? Los hombres adoran hacer eso, especialmente él, que solo sabía hablar de mujeres y fútbol. No tengo nada contra el fútbol o las mujeres, pero hablar solo de eso, hay que tener paciencia. Tienes que ser un tío muy superficial para quedarte solo en eso. Pensé en preguntarle sobre algún libro, algo así que lo dejara con el culo al aire, pero apostaría un brazo a que no serviría de nada, y él saldría de esa riéndose y señalando el culo de alguna Caperucita Roja o Marilyn Monroe de allí.
Entonces sentí que alguien me tocaba el hombro, ya estaba cabreado pensando que era otro imbécil de esos que marca territorio, pero cuando me giré, descubrí que era Anna. Creo que acababa de llegar a la fiesta — al menos me dijo eso, y que estaba contenta de haberme encontrado tan rápido. "Ya sabes cómo es, esto ya se está llenando."
Llevaba un disfraz de Blancanieves, vestidito corto, tela brillante, rojo y azul con los detalles blancos, esos que todo el mundo conoce de la película de Disney. Tenía los labios rojos como una cereza, llevaba una manzana en una mano y en la otra un vaso de plástico medio vacío, medio lleno. Eso, definitivamente, no estaba en la película. A su lado, una chica vestida de, no sé, me parece que esas cosas de bailarina de saloon, y otra vestida de Minnie, pero Minnie putilla, todo muy corto y mucho escote y tal. No sabía si sentirme atraído o darme pena ese tipo de cosas. Después de que bebes solo te sientes atraído, pero si decides no ponerte una gota de alcohol en la boca en un lugar de esos, sales pensando horrores y te quedas medio deprimido, creo que ya lo dije, la gente me deprime mucho con su forma de ser.
Pero algo en mí siempre dice que sienta pena. Esta gente no debe tener mucho que mostrar, quiero decir, por dentro, personalidad e ideas y tal. Entonces tienen que mostrar los muslos y destrozarse el hígado, como si el pobre fuera a regenerarse para siempre como en esa historia de Prometeo. Tengo un libro sobre mitología griega, que me regalaron, y siempre me llamó la atención esa historia. De cualquier modo, algún día los buitres ganan, esa es la verdad, porque tienen toda la eternidad para eso y probablemente nada mejor que hacer.
Estuve hablando con la tal Anna, pero no teníamos mucho en común. A veces me reía de alguna observación, alguien que bailaba raro, fulano que vino solo a la fiesta, esas cosas que a ella le encantaba decir y yo asentía para no parecer pesado. Pero la cosa se enfrió pronto. Más o menos por esa hora sus amigas la arrastraron, creo que ni fue intencional, ella hasta me miró con una miradita bonita, diciendo que no quería irse, pero yo tampoco tenía ganas de hacer todo ese esfuerzo para que se quedara. Ya estaba cansado, la verdad.
Después de que Anna se alejó pensé con calma en qué iba a hacer. Conocía al menos a dos chicas allí, que yo sabía que tenían más que muslos y podían mantener una conversación más intelectual, salvo que no era muy el lugar para eso. Una era compañera mía, rubia, altísima, el cuerpo mejor torneado que he visto, tenía un nombre medio raro y era graciosa, aunque anduviera con un montón de capullos que no me caían bien y yo, al fin y al cabo, era como si no me cayera bien nadie. La otra era una chica flacucha, medio tímida, que ya había escrito un libro de poemas, se llamaba "Fresas y Bisturíes", sí, estudiante de medicina, tenía que ser algo así de mórbido, pensé... había un poema buenísimo que hablaba de los bisturíes rebanando las fresas y solo después te das cuenta de que la fresa que gorgoteaba era de sus muñecas, y que en vez de un buen postre ella estaba allí rebanando su propio fin. No pude dejar de pensar en ella, sentada en su cuarto oscuro, escribiendo aquello muy cabreada con la vida, tal vez por culpa de algún imbécil, o una pelea familiar, o algo así, y pensando en matarse, pero en vez de eso, mataba esos sentimientos con lápiz y papel. A pocos pasos de mí, bailaba como si no hubiera mañana, meneando la cintura delgada y haciendo esas gracias con el pelo que solo las mujeres más guapas saben hacer, y eso que era tímida. Perfectamente camuflada con las otras, creo que a eso lo llaman mimetismo. Pero quién sabe, ¿tal vez no hubiera mañana, de verdad? Muy mórbido, tío, pero cuando lo leí, me lo pasé de muerte. Y allí estaba Josie, una tía genial de verdad, vestida de Sakura, lo cual, para mí, era un disfraz sensacional y solo la hacía aún más increíble, podía ahora mismo decirle "tus poemas son la hostia, inigualables, y me casaría contigo sin pensarlo", pero ella se reiría, al fin y al cabo, tiene ese refinamiento raro de creer sin creer, medio desconfiada, y un residuo de simpatía que también podía pasar por arrogancia para quien no la conociera muy bien. Hey, Sakura (ya sé que te llamas Josie, pero ahora eres Sakura), ¿nos escapamos de la fiesta, pasamos por nuestras casas, recogemos todo lo que necesitemos y lo metemos en el coche y viajamos? ¿Adónde, Holden? No importa, eso nunca importa, Sakura, siempre estamos tan preocupados por adónde vamos que olvidamos dónde estamos y aquí no está pasando absolutamente nada, entonces ¿por qué seguimos parados? Escapémonos a cualquier lugar y decidamos cómo va a ser la vida en vez de dejar que ella decida por nosotros quiénes vamos a ser.
Ella se partiría de risa, le parecería la idea bonita, muy romántica, pero me diría lo que ya sabía, que tenía novio (Dios mío, uno de esos imbéciles), que hasta conocía (él estaba para la imbecilidad como aquella cabeza de cerdo en El Señor de las Moscas está para la degradación). O sea, no se escaparía conmigo de ninguna manera.
Lo peor es que en medio de todas esas ninfetas armadas de borrachera y poquísima ropa, quien me llamó la atención fue una vestida de Muerte, una túnica que le llegaba hasta las rodillas, con capucha y todo, y una guadaña de plástico para dejarlo todo más elaborado. Tardé en ver bien su cara, y me pareció que estaba muy guapa, incluso con aquel disfraz mórbido. Ya la conocía, porque habíamos tenido una clase juntos, pero aunque sepas que es guapa igual miras, porque algunas mujeres quedan horribles debajo de tanto maquillaje. Ella llevaba poco, menos mal. Pero eso no me molestó tanto, lo fastidioso es que ella también tenía novio, esa era la jodienda. Era muy guapa e inteligente, y parecía medio graciosa así, como que sabía coger el ritmo del interlocutor y hacer que la conversación fluyera, y también te hacía entender con una mirada cuando no tenía ganas de charla. Con algunos parecía no tener nunca ganas de charla, pero conmigo, las pocas veces, había hablado bien. Su voz era bonita, era de esas que dan ganas de quedarse oyendo por horas, ese tipo de mujer que te da ganas de casarte, piensas que vale la pena quedarse oyendo la misma voz el resto de tu vida por chicas así y si un día dejaran de hablar, tío, ni sabes cómo va a ser.
Ella vio que estaba por allí, me reconoció. Vino a saludar. Empezamos una buena conversación, sobre un montón de cosas. Hablamos primero de banalidades, creo que todo el mundo empieza por ahí. Al fin y al cabo, no llegas y empiezas a hablar de Spinoza o de algún experimento científico que demostró que estas fiestas son un análogo de los rituales de apareamiento de los demás animales, ¿quién va a tragarse una cosa así de entrada sin pensar que está hablando con un maldito psicópata?
Ella empezó a hablar de un libro que estaba leyendo. Era un libro de un tal Brodsky, sobre Venecia. Yo no lo había leído, no, pero por cómo me lo contó, era como si ni necesitara leerlo para saber cómo era. Era muy bueno, y me contó un poco la historia del tío y cómo adoraba la ciudad incluso cuando aún no la conocía, y sobre cómo lo habían expulsado de su país. Esas cosas tristes que le pasan a todo el mundo, de formas diferentes, porque la otra gente es muy estúpida y eso siempre le toca pagar a alguien.
La verdad es que era increíble encontrar una chica que leyera y hablara de un libro en una fiesta de estas. Ve a preguntarle a estos niños de papá cuántos libros han leído, por ejemplo. Ni les preguntes qué están leyendo, porque no están leyendo nada, te lo juro. Pérdida de tiempo, te dirán. No sé si no tienen razón, yo leo bastante y estoy peor que ellos. Ahora, ve a preguntarles si les gusta el cine. Puede que no les gusten las películas japonesas, de Europa del Este, y esas cosas más cultas, pero la mitad de ellos va disfrazado de personajes de cine. Hay de todo, de verdad: superhéroe, villano, vaquero, alienígena. Pero también, lo único que tienes que hacer es salir de casa, sentarte hora y media el culo en una butaca blanda y dejar pasar el tiempo. No hace falta coger el maldito diccionario y leer (excepto los subtítulos), no hace falta tener un coeficiente muy alto ni interpretar nada, solo ir tragando fotogramas y vomitando risas y grititos de admiración. Mira, hay películas que son geniales de verdad, pero en general solo ven cosas hechas, trilladas, solo blockbusters. ¡Jo! Me pone de los nervios. ¿Qué cuesta usar un poco la cabeza, de vez en cuando, solo para variar?
La Muerte — la estaba llamando así, solo de broma, y ella se reía — se giró hacia mí, señaló mi gorra de caza.
—Eso es de un libro, ¿verdad?
—Sí —respondí, medio cortado, no quería juzgarla por no saber de dónde había sacado aquello. Uno nunca quiere juzgar a una chica que le parece guapa, excepto cuando ella ya te desprecia de entrada, entonces sí, te empeñas en juzgar. ¿Quién se cree que es, para que no le gustemos? Pero lo jodido es que entonces se vuelve más atractiva y quieres aún más estar con ella, para demostrarle lo equivocada que estaba contigo.
—Qué guay, es diferente. ¿Cómo se llama?
—¿El qué? —estaba medio confundido si quería el nombre del libro o del personaje, pero completé— Es Caulfield, de El guardián entre el centeno. Es un libro de Salinger. Murió hace poco.
Dije eso y pensé en lo triste que era ser un tío, y luego escribir un libro, y luego morirte y que la gente siga leyendo lo que escribiste. Es como tener tu obituario entero publicado repetidas veces para que repetidas personas lo vayan leyendo, y que eso nunca termine.
—Ah, me acuerdo. Mi padre tiene ese en su biblioteca, el viejo no para de empujarme para que lo lea, pero nunca pensé que fuera bueno. Ahora, creo que lo voy a leer.
—Guay —dije yo, con esa sonrisa medio torpe que usas cuando querías decir algo interesante para continuar la conversación, pero te quedas medio atascado, con vergüenza de decir alguna tontería y cagarla.
—Eres medio raro —dijo ella—, pero no te lo tomes a mal. Es un raro bueno.
Me gustó oír aquello. Es la hostia cuando una mujer te dice algo así, especialmente si es atípico, tipo "eres medio raro" y no "vaya, ¿ese es tu coche?". Me quedé pensando qué era yo en la otra mitad que no había mencionado, pero no dije nada. Después de un rato, dije:
—Ah, ¿sabes cuando lees un libro que está en primera persona y te gusta mucho y como que te conviertes en el personaje, sientes que eres él y todo eso? —ella movió la cabeza, joder, qué guapa se ponía escuchándote, parecía estar muy interesada de verdad— Creo que me siento un poco como este protagonista. Me gustó bastante el libro, ¿sabes?, entonces creo que cogí su manera y lo transformé en unas vacaciones de mi personalidad. Parece que es mejor ser él por un tiempo, tipo unas vacaciones de quien realmente soy. No sé si me estás entendiendo.
Casi se muere de risa, probablemente pensando que era el mayor ridículo, y a mí ni me importó. Pero entonces repitió, acercándose mucho:
—Joder, sí que eres raro —pero lo dijo de buenas, no podía importarme, de verdad. No había forma de saber cuándo era un cumplido, especialmente porque a veces una mujer dice una cosa, pero quiere decir algo totalmente diferente, y las otras mujeres en general lo entienden bien, pero yo soy medio despistado para eso y acabo sin darme cuenta.
Hablé un poco de por qué me gustaba el libro y me identificaba, después hablé de mi vida, cosas sin interés, pero ella escuchaba con atención, parecía hasta muy atraída por mi relato. Después habló un poco de ella. Luego nos quedamos callados y bailamos cerquita uno del otro, su perfume y su calor envolviéndome, todo muy correcto, sobre todo para este tipo de fiesta.
Entonces pensé en Salinger y en cómo no quería decidir el resto de mi vida tan pronto. Después de que tuvo éxito, se cerró al mundo; nunca más apareció, no anduvo por ahí dando sopa para que vivieran de su imagen. Él no era pasto para ese tipo de animal, ese tipo que adora exponer a los demás para ganarse la vida, admiro mucho eso del tío. Esos son los mejores escritores, los que les importa un pimiento lo que piensen de ellos, que no les importa la fama. Un tío que escribe pensando en la fama solo puede ser muy estúpido.
Qué envidia le tengo al tío, en serio. Pero creo que cuanto más genial es alguien, menos quiere saber de toda esta porquería, emborracharse, manosear muslos genéricos y fingir que le importa la gente. Hay tanta gente estúpida por ahí que aunque seas mediocre puedes creerte especial. En la fiesta, por ejemplo, yo pasaba de todo el mundo y todo el mundo pasaba de mí. Y parecía que todo el mundo era importante allí. Y una mierda que eran todos importantes, eso sí. Bien hizo Salinger, dándole la espalda a esta gente que no sabe nada de literatura, solo de cotilleos.
Creo que el peor tipo de gente son esos que viven alrededor de alguien que tiene talento; el escritor es como un cadáver y toda esa gente son buitres. Debo haber leído una metáfora parecida en algún sitio, creo que eso no puede haber salido de mi cabeza, pero de cualquier modo, así me lo parece.
Pensé también en qué era ser especial, probablemente yo tampoco era especial. No soy todo intelectual y aficionado a la cultura y recluido así, nunca sería un Salinger, pero uno en general se siente, como dice mi hermana, la última galleta del paquete, pero de repente miras al lado y ves que hay miles de paquetes en el estante del supermercado y cada uno tiene una última galleta del paquete y, al fin y al cabo, ¿qué importa ser la última o no? Odio a la gente que hace ese tipo de analogía y aún más a quien la propaga, no tiene mucho sentido, si lo piensas.
Entonces dejé de pensar del todo y la abracé, primero con calma y después con fuerza. ¡Jo! ¡Qué ganas de llorar! Abrazas a una mujer y parece que el mundo se vuelve ligero y pesado al mismo tiempo, nunca voy a conseguir entender eso del todo. Le pasé la mano por el pelo, pero no podía mirarle la cara. Tenía novio, pero ¿qué tenía yo que ver con eso?
Acabamos enrollándonos en un rincón. Fue muy bueno, hasta pensé que me iba a enamorar, te queda esa sensación vaga de que aquello ha pasado desde siempre y siempre va a pasar, pero entonces acaba y ves que no era para tanto, que te dejaste llevar por el momento, esas cosas. Pero ella era muy guay, y también mona, tipo una muñequita. Me había salvado la noche. Pensé que después no iba a pasar nada más, y entonces no quise preguntar por el novio, ese tipo de cosas solo sirve para incomodar. Además, ella era mayorcita, seguro que sabía lo que hacía y no era yo, un mocoso haciéndose el adulto, disfrazado de Caulfield, quien le iba a soltar un sermón.
Hablamos unos quince minutos más en todo aquel jaleo — joder, qué música más mala —, y de la gente empujándose y enrollándose a escondidas. Era bueno hablar con ella, pero tenía que irse — al menos dijo que tenía, yo qué sé. Por mí echaba a toda esa gente de allí y me quedaba bailando con ella hasta el amanecer. Casi se lo dije, pero pensé que sería una putada decirle cosas románticas a alguien que ya está enamorada de un tío.
Después de que se fue me quedé allí otra media hora. El efecto de la bebida fue pasando y volví a deprimirme. Una Caperucita Roja se acercó a mí y empezó a bailar como invitándome a ir allí y enrollarme con ella, pero tío, ya estaba tan borracha que ni se acordaría de mí al día siguiente. Era una cosa hasta medio psicoanalítica, vestirse de Caperucita y ofrecerse a un lobo feroz, tengo un amigo que seguro diría eso, pensé, y hasta me lo imaginé diciéndolo, todo serio, frunciendo el ceño, como si constatar aquello fuera a cambiar algo. En el fondo, me dio pena, pero no sabía qué era mejor, despreciar la oportunidad o ir allí y hacer lo que ella quería, tal vez se sintiera aún peor si no la usaba que si la usaba. Para mi suerte un tío llegó antes y me ahorró tener que decidir. Estaba muy cansado, de verdad.
Encontré por allí a un amigo, pero le avisé de entrada que me iba. Dijo que él se quedaba, como si hubiera venido a la fiesta conmigo, estaba totalmente ido, el tío. Era un tipo gracioso, medio desgarbado, parecía un espantapájaros. Vi que estaba abrazado a su ex, ella también estaba totalmente pedo. Les dije adiós a los dos, pero creo que ni me oyeron.
Saliendo de la fiesta me acordé de la Muerte, y de ese rato que pasamos allí, como si no existiera nadie más en la fiesta y en el mundo. Qué tío con suerte el que iba a dormir abrazado a ella esa noche. Aunque ella hiciera ese tipo de cosas — y quién sabe si él no hace lo mismo. Debe ser bonito tener a alguien para dormir abrazado.
Fuera, tal vez encontrara alguna cosa bonita para recordar de la noche, porque el resto había sido medio malo. Un niñito cantando algo, tal vez. Pero a las cuatro de la mañana, no hay niños en la calle, excepto los que están durmiendo debajo de un toldo tiritando de frío.
¡Jo! Pensar en eso me deprimió de verdad.
Paré un taxi y entré. Me bajé la gorra de caza tapándome los ojos, me tiré para atrás en el asiento de cuero y pensé en la vida. Creo que en el fondo pasamos la mitad de la vida solo haciendo eso — pensando en la vida. Y encima no llegamos a ninguna conclusión.
Sí, creo que soy medio raro, de verdad.